19 Agosto 2009

Entranhas

Sabia que era sonho, mas sentiu o desespero que só a lucidez é capaz de infligir. A filha se desfazendo em lágrimas: “Me abandonou, mãe. Ele me abandonou”. Abraçava a pobrezinha, acariciava seu barrigão de sete meses e dizia: “A mãe avisou. Não se deixa de ouvir a mãe”. Acordou com aquele aperto no peito obstruindo sua respiração. Encheu os pulmões e soltou uma rajada de ar pesada, grave. Saltou da cama debaixo dos roncos estrondosos do marido, pousou os pés nos chinelinhos de borracha que ficavam estrategicamente ao lado da cama e seguiu arrastando-os até a cozinha, onde serviu-se dum copo d’água fria. Mal terminou de beber. O aperto não dava trégua, seguia castigando suas têmporas, seu esôfago, suas pernas, que latejavam, tremiam.

Ajoelhou-se perante o sofá e enterrou o rosto no assento, braços circundando a cabeça, mãos crispadas, implorando aos céus que livrassem sua filha daquele homem canhestro e desprovido de apelos, que sabe lá por intermédio de quais mandingas roubou o coração da menina que ainda ontem pedalava seu velotrol cor de rosa pelo quintal. Precisava fazê-la entender que sair de casa para viver uma aventura com um homem, fosse quem fosse, ainda mais esse!, era um atentado dos mais cruéis contra o coração de uma mãe; e que desde a primeira vez que vira aquele rosto petulante previu - com o mesmo instinto com que mães salvam filhos desde tempos imemoriais - que ele não era confiável. Ninguém era, aliás. Para muitos, sabia, a filha não passava de uma moça de vozinha enjoada, exageradamente simpática, que carecia de dureza no trato para ganhar alguma solidez moral. Praquele homenzinho hediondo, sua menina era carne para consumo imediato – seios, pernas e nádegas compradas no açougue, onde não se pergunta pela história ou família do animal abatido.

“Deixa quebrar a cara”, era tudo que dizia o pai, sem desviar os olhos da tevê. As irmãs não economizavam: “Vagabunda. Sempre foi”. E a mãe corria do quarto pra sala, da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto, procurando alguém que escutasse seus clamores, sem sucesso, já que era mãe e estava sozinha na gestação de suas profecias. Ninguém participava de sua dor, de seu calvário, muito menos a filha que fingia – e na certa fingia! – conviver pacificamente com aquele demônio, como se fosse possível.

- Alô. – disse a voz do outro lado da linha.

Um arrepio percorreu suas vértebras de alto a baixo. Aquela voz grotesca, apática, inconfundível, sabia que corria o risco de ouvi-la ligando assim, no meio da noite, mas imaginou que a filha fizesse sempre as vezes de empregada da casa. Desligou. Não aceitava trocar uma palavra que fosse com aquele homem. Pouco depois o telefone tocou de volta.

- Mãe, já falei pra não desligar na cara do meu marido!

Marido. E essa agora. Namorou por sete anos no sofá da sala sob olhos atentos de pais, tios, primos; seguiram-se dois anos de noivado oficial que tiveram como maior pecado os beijos que vez por outra se permitia receber no lóbulo da orelha; casou de branco, com todas as bênçãos celestes existentes e que ainda se hão de impetrar; padeceu durante décadas as aflições dum cotidiano monocromático que pouco a pouco tingiu de cinza o jovenzinho esbelto que lhe beijava as orelhas, transformando-o num buda de louça que berrava, brigava e roncava; tudo isso para ouvir uma pirralha apelidar o primeiro malandro que achou na esquina de “meu marido”.

- A mãe sonhou com você, filha.
- Boa coisa não foi... Fala logo.
- Esse aí te largava, com barrigão de sete meses. Me ouve.
- Ah, mãe. Não enche, vai!
- Deus está avisando, filha.

Sabia de antemão que não seria ouvida, mas de tempos em tempos achava-se presa num véu de esperança que tornava tudo tão simples, tão claro. “Hoje, vai saber, depois de uma briga mais séria, um bom conselho de mãe e ela acaba voltando pra casa”, pensava. Mas o tal hoje ficava sempre pra outro dia.

Algumas semanas depois, ao voltar do mercado, avistou um carro vermelho estacionado no portão. Nunca vira o tal carro, mas tinha certeza que a filha viera nele. Faro, talvez, mas ela sabia. Apertou o passo. Antes que alcançasse ao portão, este se abriu e dele saíram o pai e ela, a filha. Estavam abraçados e riam, mas fecharam o rosto quando viram a mãe.

- Mas já vai, minha filha?
- É, mãe. Foi coisa rápida.

E a filha abraçou-a forte, bem forte e tão forte que a mãe sentiu os olhos marejarem, saboreando aqueles bracinhos até ontem curtos, mas que agora lhe envolviam inteira, os dedos magros apertando suas costas por sobre a blusa de viscose, o perfume de flor, os cachinhos do cabelo que lhe tapavam a visão feito persianas, enterrada que estava naquele pescoço branco e cheio de pintas, cujas posições trazia decoradas como se fossem constelações, pois admirava aquelas pintas sempre que a filha desmaiava de sono em seu colo e vez por outra ligava alguns pontos com hidrocor formando um desenho só para vê-la acordar irritada – zanga de criança, dessas que logo passa, uma delícia –, e depois cair na gargalhada e começar ela própria a ligar os pontinhos naquelas pintas e descobrir mais e mais constelações que trazia no pescoço.

A filha entrou no carro, o “marido” esperava ao volante. E o carro arrancou, não demorando a desaparecer no fim da rua. A mãe ainda permaneceu alguns instantes fitando o horizonte que reassumia lentamente a paleta de cores habitual.

- Vamos, mãe. Entra. – disse outra filha.

A mãe encontrou os demais reunidos na sala. Estavam calados, solenes. Ali tinha coisa.

- Fala logo! O que foi que aconteceu!? – perguntou a mãe, sem pestanejar.
- Melhor dizer de uma vez. – disse uma das filhas.
- Devagar... Quer matar ela do coração? – retrucou o pai.
- Ai, meu Jesus. – exclamou a mãe, levando a mão ao peito.
- Ela está grávida. Pronto! Falei!

A mãe desabou no sofá e se não houvesse sofá atrás dela desabaria no chão e não sentiria diferença alguma pois o sofá lhe recebeu com a dureza duma lápide.

- E como você não aceita o rapaz, eles vão se mudar pra São Paulo e ter o bebê perto da família dele.

Permaneceu ali, caquinhos no sofá. Não ouvia mais nada. Provavelmente diziam coisas, mas ela não estava mais ali. Estava de novo no quintal, numa tarde morna de primavera, empurrando o velotrol cor de rosa, observando o balanço daquela cabecinha cacheada, as dobrinhas daquele pescoço cheio de pintas, o corpinho rechonchudo de bebê que lhe causava o impulso louco de beijar, de apertar, de morder, de empurrá-la de volta para o ventre e senti-la mais uma vez dentro de si, misturada às suas entranhas.

10 Julho 2009

Verde-Musgo

Recolocou o Dom Quixote de capa-dura verde-musgo no lugar certo, que era junto dos demais clássicos verde-musgo que enfeitavam a estante e que nunca lera, e não ali, jogado no sofá, como o encontrava todos os domingos depois que Rosana ia embora; o livro no sofá, aquele ultraje, lembrança do sem-número de vezes que insistiu para que levasse a porra do livro pra casa duma vez, mas Rosana continuava ali, jogada no sofá, lendo durante horas e horas num silêncio acintoso, quebrado apenas pelas risadas esporádicas que pareciam espirros de criança, intercalando longos momentos de uma respiração pesada, doída.

Este era o saldo de anos e anos dum relacionamento que apresentava a mesma temperatura em qualquer estação: ela lendo Dom Quixote no sofá da sala; ele no quarto, alimentando janelinhas de bate-papo que piscavam, pulsavam, urgiam na tela do computador; todas carregadas de mistério, de excitação, da completude que jamais viria daquela mulher verde-musgo. Entre sala e quarto, um oceano, separando povos, formando em cada extremidade culturas, línguas, moedas; o que no quarto mostrava-se excitante, misterioso, na sala esmaecia, adquiria os tons da pele desbotada de Rosana, a insipidez de seu sorriso simétrico, a candura de suas feições enjoativas; ao transpor os umbrais que separavam os cômodos, via-se debaixo das luzes mornas da vida real, que expunham o ridículo de suas ereções sob a bandeja do teclado. Passava pela sala à toda, pescoço rijo, mantendo a cozinha sempre diante dos olhos para não correr o risco de pousá-los acidentalmente nela, naquele corpo estranho que se apossara da sala, do sofá, dos livros que não deviam ter outra função que não enfeitar a estante. Quanto mais olhava para aquele rosto tão familiar, mais difícil era reconhecê-lo – a fisionomia lhe escapava; o nariz, a boca, os olhos, pareciam traços dum amor do passado, de vidas passadas, uma lembrança genética, como que gravada, de fato, nas células, mas sem afeto algum.

Os fins de domingo, única lacuna que tinha para si, o lapso de tempo espremido entre Rosana e a hora do trabalho que se aproximava, eram preenchidos por uma nostalgia imprecisa, que apontava para lembranças da vida que escolheu não viver. Fazia então seu inventário emocional para concluir que não possuía nenhum bem a declarar; nada além daquele amor embolorado que carregava na carne feito uma invalidez. Terminava jogado no sofá – como celebrasse a retomada do território -, relembrando os amores de infância que deixou escapar por simples inanição, pela incapacidade de reconhecer para si que amava - e como amava - a priminha de segundo grau com quem passava os carnavais em família na casa de praia. Agora, décadas passadas, reinterpretava os sinais que à época lhe pareciam tão nebulosos, tão indecifráveis, os pequenos apelos de fêmea, que fossem eles mais didáticos, anulariam aquele charminho bruto, o sofisticado denguinho de menina, aquele abismo de densas trevas que não exigia dele mais que um pequeno passo para engolí-lo, mastigá-lo e cuspi-lo uma outra coisa: um alguém experimentado em mistérios que a mente simplória do menino não é capaz de imaginar e para os quais a menina-mulher já conduz pela mão.

Imaginou os filhos cândidos, desbotados e insípidos que sairiam de Rosana, todos aleijados do desejo, da chama, e para os quais não teria nada a ensinar, pois quando o abismo lhe chamou à beira da praia, quando os adultos voltaram para casa e se viu sozinho com ela, o crepúsculo se desfazendo em manchas púrpuras por sobre o mar sonolento, as nuvens cinzentas orquestrando o golpe final no dia que agonizava, e viu aqueles olhos grandes e negros fixos nos seus, e os lábios disparando zombeteiros a pergunta fatal “já beijou?”, teve medo, sentiu os dedos dos pés queimando nos chinelinhos e o calor subindo as pernas, braços, ventre, ganhando o peito, o coração crispando, rompendo, tão quente era o sangue; viu-se pequeno, sozinho, perdido num mundo de trevas, de mistérios profundos; e preferiu bancar o machinho, dando de ombros, fingindo não perceber que aqueles olhos chacoalhavam sua alma, embotavam seus sentidos virginais, condenavam-no à perdição eterna. Dormiu no sofá.

28 Abril 2009

Vácuo

olhou praquele rosto de tantas lágrimas e risos e beijos e gozos e nada viu além dum vácuo chato que fazia vista grossa a um passado que tinha medo de tornar-se justo essa zona de emoções sedimentadas e inacessíveis que agora traziam o terror das coisas que passam e convidam para que junto delas passemos donde estamos pra onde já não seremos. olhou e tentou desenterrar coisas perdidas na dobra dos dias, mas estava além de suas forças. sentiu o torpor, o desespero. mais um fim, como tantos fins... sonhara com o momento em que se libertaria, mas liberdade não tinha gosto bom. tinha gosto de vela, de chuva, de crepúsculo dominical. não é assim, não é assim!, ela dizia, seremos felizes. mas as frases quebravam longe da praia. queria até dizer sim, seremos, perpétuos e felizes, mas olhava praquele rosto de tantas festas e luas e missas e orgias e via: estou só. via que a solidão era a única coisa permanente, que o vazio cedo ou tarde lhe visitaria com seu hálito mórbido e suas palavras sensatas. dizia adeus porque já tinha ido. há tempos. dizia adeus para si, mas as lágrimas dela velavam pelos dois.

24 Março 2009

Sangue no chão de taco

Ela entrou e as paredes tremeram. Seu olhar vidrado anunciava meu fim. A visita era rápida, estratégica. Tinha pressa. Viera me eliminar. Puxou um pequeno revólver da bolsa e me acertou bem na cabeça. Paf! Senti um impacto forte e depois um desmaio súbito, mas em poucos instantes me recobrei fitando as pás do ventilador de teto, que giravam, giravam, giravam. Ela sentou-se no chão, bem junto ao meu corpo, acariciou minha cabeça, beijou o buraco da bala.

- Ah, como te amo! - ela disse, percorrendo carinhosamente o diâmetro do ferimento com a ponta do dedo. - Mas não tive escolha. A vida me chamou, benzinho. Quero o risco, quero o dano, quero colecionar dores diferentes das que você me causa.

Meu sangue se espalhava lentamente pelo chão de taco, penetrava nas gretas, ganhava o mundo.

- Nos amamos mais que qualquer casal já se amou. Nos amaríamos daqui a cem, duzentos anos! Por isso te matei. Preciso errar, vacilar, me perder na multidão do comum. Tem um cara aí fora me esperando. Ele é raso, não me acrescenta, não me desafia, mas ainda assim preciso me perder nos braços dele, entende?

Não conseguia me mexer, nem falar, nem pensar. Só me era permitido ouvir. Nem dor sentia. Ouvia e só.

- Precisava escolher entre minha vida e a tua. Se ignorasse essa coisa que berra aqui dentro estaria matando a mim mesma. O jeito de me salvar foi te sacrificando, viver por intermédio do teu sangue. Você, meu cordeirinho pascal.

Ela levantou e saiu do quarto. Ouvi barulho de armários, gavetas. Voltou com fósforos e fluído de isqueiro.

- Você será minha lembrança eternamente doce, meu idílio juvenil, a esperança do amor que não fracassou, que morreu eterno, vigoroso. Por isso te matei, cordeirinho, porque te amo, porque te quero infinito, a trilha sonora da minha perdição, da minha dor.

Banhou meu corpo com o fluído, riscou o fósforo e ateou fogo. Me assistiu queimar por alguns instantes, num silêncio cerimonioso. Ouvi suas últimas palavras com alguma dificuldade, devido ao crepitar intenso da minha pele.

- Serei eternamente grata a você, benzinho, por tudo, tudo, tudo. Não pense que sou ingrata. Ah, que besteira a minha! Você sempre me entendeu.

E foi embora, não sem antes desligar o ventilador. Fiquei ali, no chão do quarto, queimando, enegrecendo, assistindo as pás do ventilador sendo vencidas pelo ar.

08 Fevereiro 2009

Chove

E chove. Que o mundo se desfaça! Em pedaços, muitos, miúdos e odiosos. Desça sobre nós como lâminas tuas gotas, nos rasgue, nos fatie, nos lave da mentira. Foi-se mas deixou a chuva, na qual me perco, no aconchego frio, na doçura do fim. Levou no sorriso minha fé, mas deixou o rufar das trovoadas, no qual me acho. A chuva é a verdade! O crepitar das gotas no chão musicalizam o que antes era dor. Nos pingos-música, notas de ameaça, notas de promessa. Liquefeito, me desfaço no mundo, me diluo até não ser água sequer. Líquido, sou tua chuva de lágrimas que decretam a morte, saliva quente do teu beijo fatal. Chove e lava o mundo!, cobre o chão de prata e o céu de cinza fosco, nos livra do mal, afogue-a em correntes bravias. Faz-me chuva! E choverei com vigor, castigarei a cidade, inundarei as casas. Vai! Corre porque tenho a chuva! Liquefarei o mundo. Liquefarei a dor.

08 Agosto 2008

Ela queria uma vida

Blim-Blom! Joana e o marido escritor chegaram. O cara era magro, frágil e pálido como um bule de porcelana. Tinha olhos verdes, azuis, não sei, eram de uma cor tão fraca. Aliás, tudo nele parecia sem cor. Sobre o quê aquela merda de homem escrevia? Talvez o problema nem fosse ele e sim o fato de estar ao lado de Joana, a fabulosa, a mitológica, a devoradora, a avalanche de madeixas negras encaracoladas, o arsenal de dentes perolados, os grandes olhos cor da noite, os peitos que amamentariam metade da África faminta. Era bonita de dar medo.

Mal sentamos à mesa para jantar e o escritor começou a tossir feito tuberculoso e uma série de placas avermelhadas emergiram em seu rosto cor de vela. Marcela, minha mulher, havia comprado dezenas de livros pelos sebos da cidade para preencher os espaços vazios da estante. Não queria parecer inculta diante da visita célebre. Mas o nobre escritor devia estar acostumado aos grandes gabinetes reais de leitura e não sabia da existência dos livros de segunda, terceira, vigésima mão. Para ele, os livros iam direto pro céu depois de lidos, enquanto minha sala havia se tornado um medonho cemitério de digitais de leitores. O suor, a gordura e as células epiteliais de cada um deles estavam ali, testemunhas eternas de seu (des)interesse pela literatura.

Fomos para a copa. A mesa era bem menor e não couberam as baixelas e travessas novas. Ficaram só os pratos novos. Tudo comprado para impressioná-los. O escritor se recuperava aos poucos de seu fricote, enquanto Marcela não parava de importunar Joana com perguntas sobre a viagem dos dois para Barcelona, Lion, Berlim, Praga. Mas o que eu mais temia ainda estava por vir.

- Puxa, - começou Marcela - achei muito interessante a forma como você reescreve os clássicos num sistema pós-moderno de signos da contemporaneidade.

Ela tinha lido isso no Google. O escritor, que até então havia se mantido calado na maior parte do tempo, conteve a muito custo um sorriso de satisfação, sentindo-se no dever de iniciar um extenso monólogo sobre este monstro disforme e infronteiriço chamado literatura. Sua voz era baixa, monótona e constante. Parecia mais um zunido. Falou à respeito dos círculos acadêmicos, da crítica, do mercado editorial, das feiras literárias, do Pulitzer, do Nobel, do Saramago, do Dan Brown. Será que os livros que ele escrevia eram esse pé-no-saco? E se não eram, porque não desembestava a falar sobre algum puta assunto, um tema realmente do cacete, digno de alguém pagar quarenta pilas num calhamaço de papel e passar o tempo livre debruçado sobre ele na tentativa de enxergar alguma merda de sentido nesse mundo? Escritores não passam de fraudes de si mesmos.

Os olhinhos de Marcela cintilavam em transe. Nem ouvia, apenas admirava aquela figura de um mundo que julgava inacessível. Ela ansiava por questionamentos colossais e verdades elevadas. Ela queria uma VIDA, mas eu não tinha uma pra dar. Já o escritor era um Prometeu trazendo fogo sagrado aos homens, um profeta anunciando a mensagem que ela não podia compreender e que, portanto, lhe parecia sublimada, inaudita, sagrada.

Levantei dizendo que ia ao banheiro. Fiquei um tempo lá jogando água na cara, tentando juntar fôlego para engolir mais uma dose indigesta daquele charlatanismo. Joana apareceu na porta do banheiro.

- Quando o Tales começa a falar de literatura não pára mais. - disse ela.
- Tem quem goste.
- Tua mulher está tão fascinada que nem me viu sair de lá.
- Quer usar o banheiro?
- Quero usar você.

Levantei-a pela bunda e a pus sentada na pia de mármore. Ela estava de vestido e só foi preciso tirar-lhe a calcinha. Penetrei-a com vigor. Minhas mãos se transformaram em garras e onde quer que pousassem apertavam forte e deixavam roxos e vermelhões e arrancavam gemidos baixinhos de Joana, que puxava os pelos da minha barba e apertava minha nuca tentando se equilibrar na pia.

- Forte! Forte! - ela dizia entre os dentes.

E a violência me possuiu e meti com força e fodi a literatura, fodi as verdades, os sentidos, os círculos acadêmicos, o Saramago, o Google e a cara chupada daquele toco de cera filhadaputa! Gozamos.

- O que você tá fazendo com esse merda? - perguntei, extenuado.
- O mesmo que você com essa imbecil. - respondeu, esfregando a cabeça no meu peito que nem gata.

Nos refizemos sem pressa. Ainda podíamos ouvir o zunido monótono da voz de Tales vindo da copa. Ele podia falar sobre aquilo até um cometa rasgar a Terra ao meio se ninguém o interrompesse. Voltamos para a copa juntos, sem nenhuma tentativa de disfarce. Por lá, ninguém nos deu bola.

- Vamos, amor. Tá tarde. - disse Joana.
- Como o tempo passou rápido. - respondeu Tales.
- Nem fala. - comentei.

Foram embora. Marcela estava esfuziante, fascinada, em pleno êxtase. Sentia-se finalmente participante de algo não-trivial.

- Amor, - ela disse. - precisamos viajar, ler, expandir nossos horizontes!
- Claro, amor. Vamos sim. - respondi, com embargo na voz.

Despertei durante a madrugada e não vi Marcela na cama. Eram quase quatro da manhã e a luz da sala estava acesa. Fui até lá e encontrei Marcela esparramada no sofá, roncando com um exemplar encardido de Os Irmãos Karamazov aberto sobre o peito. Guardei o livro na estante - estava na terceira página -, peguei-a no colo e levei-a de volta pra cama.

05 Agosto 2008

Número 98

Ela tinha voz de desejo incubado. Voz de quem se esconde atrás de um rosto angelical e reserva sua devassidão para os desconhecidos, os anônimos, os que não podem nem querem vê-la sob a máscara da beatitude. Nos esbarramos num bate-papo por telefone. Eu, desempregado, barrigudo e com um quê de depressão, recebi aquela vozinha espivitada como uma dádiva dos céus. Passava as tardes no telefone, de pau duro, ouvindo ela narrar aventuras sexuais. Ela disse que o pai era empresário, que a mãe era estilista, que tinha motorista, copeiro, jardineiro, cozinheiro, dois huskies siberianos e que passou as últimas férias no Taiti. Eu disse que era desempregado, barrigudo e com um quê de depressão. Ela riu. Disse que tenho senso de humor.

Ménage a trois, quatre, cinq, six... Ela já fez de tudo, em todas as posições, em todos os orifícios. Transou com mulheres, veados, gigolôs, travestis e com um surdo-mudo que bateu à sua porta vendendo drops. Pagou boquete pro motorista com o pai sentado no banco de trás, entretido no caderno de esportes. O próprio pai tentou comê-la, mas ela não quis por achar seu pinto muito pequeno, apesar de ter saído de lá. Flagrou a mãe em altas surubas na sala de estar. E se juntou a elas, sem cerimônias.

Eu passava as tardes esparramado no sofá, bebendo vinho barato e curtindo aqueles contos-de-fada pornográficos. Não, ela não tinha nenhum talento pra inventar as tais estórias, mas aquela vozinha aguda me deixava de pau duro.

- Quando a gente vai se encontrar? - perguntei.
- Não tá bom desse jeito?
- Quando?!
- E se você for psicopata?
- Quando?!
- Terça tá bom?
- Não dá. Tenho entrevista de emprego.
- É terça ou nunca!
- Nunca.
- Já te contei que pratico pompoarismo?
- Já.
- Então, vai trocar isso por um empreguinho miserável?
- Quem disse que é miserável?!
- Então vai pra tua entrevista!
- Me dá o endereço.
- Rua tal, número 98.
- Me espera às cinco.

O empreguinho era mesmo miserável. Além do mais, entrevista de emprego eu conseguia duas ou três por mês. Mulher não. Tinha certeza que comendo a garota todos os meus problemas se resolveriam. A barriga na certa era algum tipo de prisão de sêmen. Toda aquela porra em conserva dentro de mim tinha que dar merda mais cedo ou mais tarde. Já o desemprego era um nítido problema de auto-confiança, porque os caras que fazem entrevistas de emprego lêem nos olhos há quanto tempo um candidato está sem comer ninguém. A depressão, bem... Depressão é o cacete!

Mas precisava resolver meu problema de auto-estima, pelo menos momentaneamente. Achei três livros empoeirados de Machado de Assis largados na estante e levei-os num sebo que tem lá perto de casa. O dono ficou maravilhado. Eram edições clássicas, raríssimas, das primeiras editadas no Brasil. Me deu quinze reais. Saí de lá e entrei na lojinha de roupas que fica ao lado. Pequena, abafada e atulhada de caixas de papelão em todo canto. Parecia esquecida pelo tempo. Não havia nenhum traço do progresso humano dos últimos séculos, à exceção da lâmpada elétrica pendurada no teto, que iluminava parcialmente o rosto sepulcral da senhora de cento e cinquenta anos que atendia no balcão.

- Quero uma sunga. - eu disse.
- Tamanho? - perguntou a velha com voz de além-túmulo.
- Médio. - respondi.
- Não ouvi, meu filho.
- Médio! - gritei.
- Aqui está.
- Não. Quero aquele outro modelo ali.
- Aquele tipo shortinho?
- Caralho... É, tipo shortinho.
- Toma, meu filho.

Pus a sunga na frente do corpo pra ver como ficava.

- A senhora acha que vou ficar sensual nela? - perguntei.
- Com essa barriga de verme? - e soltou uma gargalhada de bruxa maligna.
- Quanto custa essa merda?
- Quinze reais.
- Literatura é pano de bunda mesmo.

Deixei o dinheiro no balcão e fui embora. Nada abalaria minha auto-estima restaurada pela sunga nova.

Na terça-feira saí de casa com antecedência. Não queria me atrasar. Afinal, a menina podia ser mentirosa, mas com aquela puta imaginação algum divertimento nós teríamos. Cheguei na tal rua. Número 98, lado par. Lá estavam os numerozinhos nos portões. 88, 92, 96, 100... Filha da puta!

- Sua vagabunda, não existe número 98!
- Existe sim.
- Então sai pra eu te ver.
- Não tô em casa.
- Ah, que ótimo!
- Aconteceu uma emergência. Não fica bravo comigo!
- E a porra do número 98? Não existe, caralho!
- Existe sim!

E desligou. Lá estava eu, sozinho numa rua deserta, à procura de um número que não existia, onde encontraria uma garota mentirosa que não passava de um personagem doentio. Ah, aonde o pau de um homem não o leva! Fui caminhando lentamente na direção do ponto de ônibus, tentando aplacar a vontade que me deu de cortá-lo fora. Reparei que a tal rua era feita só de casas e sobrados. Parecia rua do século dezenove ou coisa assim. Mas na rua de trás, quase como um obelisco fálico, havia um prédio residencial de uns vinte andares. Comecei a observar aquela enorme massa de concreto fincada entre as casinhas coloridas. Destoava, era feio. Lá pelo quinto andar, um vulto que estava na sacada correu para dentro do apartamento. Foi rápido, mas deu pra ver claramente que se tratava de uma mulher... De uma mulher jovem... De uma mulher jovem que me observava. Filha da puta!

Fui correndo que nem louco para a rua de trás. Quando cheguei ao tal prédio, a surpresa: número 98. A louca me deu o número certo na rua errada. Na certa queria me ver sem correr nenhum risco. Pensei em chamar o porteiro e perguntar pelo nome dela, mas quem garante que ela me deu o nome certo? Atravessei a rua, entrei numa lanchonete bem limpinha que tinha em frente, daquelas com laranjas e melões pendurados na parede, e pedi uma cerveja. Bebi lentamente. Uma, duas, três cervejas... A garota desceu. Quer dizer, era bem parecida com o vulto que vi correr da sacada. Joguei uma nota de dez sobre o balcão e fui atrás dela.

Passava das seis. A noite já havia derrotado o dia. Fui seguindo a menina a uns dez passos de distância. Parecia ter seus dezoito. Vestia calça jeans e uma blusinha vermelha. Não era baixa, tinha cabelos castanhos escorridos até a cintura e uma bunda enorme. Andava serelepe, rebolando pra lá e pra cá. Foi quando o celular dela tocou.

- Alô! Oi, Sílvia! - ela falou.

Ah, aquela vozinha aguda, espivitada, inconfundível! Apertei o passo, cheguei perto, puxei-a pelo braço e disse:

- Número 98, né?

A menina entrou em transe. Foi possuída por um frêmito assustador. Chorava, implorava, berrava. O rosto angelical era puro pavor. Parecia diante da morte, do mal, do diabo, do fim.

- Sou eu. Calma! - falei.
- Me deixa! Eu não fiz nada! - ela gritava. As lágrimas escorrendo aos rios.
- Ei, escuta!
- Eu sou virgem! Me solta!

Escorregou dos meus braços e caiu no chão numa convulsão histérica. Acho que bateu com a cabeça. Sorte minha daquelas ruas serem desertas. Quem acreditaria em mim quando dissesse que aquele rostinho virginal dava sentido às minhas tardes vazias com a devassidão que guardava nas cisternas da alma? Deixei-a caída no chão e corri o quanto pude.

Minhas tardes voltaram a ser o que eram antes: sofá, vinho barato e um quê de depressão. A vida às vezes pode ser uma merda. E a merda sempre pode feder mais.

31 Julho 2008

Véus do Tempo

O clima pesou no boteco. Os crentes com suas bíblias e folhetos evangelísticos não arredavam pé. Os bebuns já estavam prestes a perder as estribeiras. Versículos sagrados e palavrões disputavam cada milímetro cúbico de ar. Todos suavam. Num canto, sentado, com uma enorme barriga caindo sobre as coxas, garrafa de pinga à mesa, um senhor de barba grisalha assistia ao furdunço. Tinha um quê de volúpia no rosto. Observava fixamente uma senhora baixinha, na casa dos cinquenta, de cabelo armado com laquê, trajando saia e casaquinho abotoado, com um broche dourado em forma de pombo espetado na lapela. Era quem coordenava o grupo. Esbanjava confiança, gesticulava, contemporizava, sorria. A mais xingada e a que mais sorria. Um sorriso franco, doce, que revelava suas fileiras de dentes amarelados pelo tempo.

- Morena! - disse o barbudo, com uma voz grave, imponente, que parecia não sair de sua boca, como que dublado por alguém.

A senhora baixinha estancou. Parecia que haviam lhe puxado da tomada. O bate-boca cessou. Os crentes passaram a observá-la com curiosidade, tentando descobrir se haveria alguma mudança de estratégia no embate. Os bebuns também se calaram. Queriam saber o que de tão horrendo havia sido dito, já que esgotaram seu repertório de xingamentos e nada tirara o sorriso daquela mulher. A senhora aproximou-se lentamente do homem barbudo enquanto a expectativa enchia o lugar de silêncio. O homem barbudo se levantou meio cambaleante e a mulher o abraçou calorosamente.

- Aleluia! Aleluia! - gritavam os crentes.

O homem barbudo tomou o rosto da mulher entre as mãos e afundou-se nele, num beijo fumegante.

- Caralho, mas que porra é essa? - perguntou um dos bêbados.

Um crente alto, mulato e corpulento, de camisa social fechada nos punhos e no pescoço, saiu dentre a multidão e separou os dois com rispidez, jogando o barbudo contra a parede e postando-se diante dele, como quem espera qualquer movimento para desferir o golpe fatal.

- Eliezer, calma! Eu conheço. - disse a senhora.

Os dois saíram do bar e sentaram-se nuns banquinhos da praça que ficava em frente ao botequim. Eliezer e os outros crentes sentaram num grupo de banquinhos mais afastado e estudavam atentamente cada movimento dos dois.

- Esses putos vão ficar ali? - perguntou o barbudo.
- Eliezer é meu marido. - respondeu a senhora baixinha.

O barbudo caiu na gargalhada.

- Sabia que tu ia casar, morena. Eu sabia.
- Demorei anos até...
- Teve filho?
- Dois. Bianca e Maikon.
- Porra! Meu filho nunca se chamaria Maikon.
- Foi Eliezer que escolheu.

Os bebuns vieram para a porta do botequim. Apontavam, gesticulavam e gritavam:

- Olha o corno lá! - e apontavam para Eliezer. - Cansou de pregar, chifrudo?

Eliezer bufava, o suor lhe encharcava o colarinho da camisa. Levantou seu corpanzil do banquinho onde estava e caminhou em passos épicos na direção da mulher. Antes que dissesse palavra, foi interrompido.

- Esse é o Almir. Lembra? - disse a senhora.

Eliezer hesitou. Olhou desconfiado. Parecia diante de um personagem de ficção. Almir limitou-se a dar mais uma golada na garrafa de pinga.

- Almir... Pensei que já tivessem te matado. - disse Eliezer.
- Deus bem que tentou.
- Talvez faltasse só o instrumento.
- Tá falando contigo, morena.
- Pára de chamar minha mulher de morena. O nome dela é Laura! Laura! Tá me entendendo?
- Calma, Eliezer. - interveio Laura - Ele está bêbado. Não tá vendo?
- Você tem dez minutos. - disse Eliezer, afastando-se.

Almir deu outra golada na garrafa. Laura o observava com olhar maternal.

- Porra, você acabou comigo. - disse Almir.
- Mas tentei de tudo pra salvar tua alma.
- Minha salvação era você.
- Almir!
- Não vem com esse papo de mulher casada.
- Tentei ou não tentei?
- Egoísta! Vocês são todos uns egoístas.

Silêncio, à exceção de uma brisa que assobiou sobre a praça. Almir observava os efeitos do tempo no rosto de Laura. As bochechas antes rijas agora estavam como que derretendo. Os olhos pareciam tristonhos, com pequenos sulcos se formando nas pálpebras, e a boca de lábios pontudos e ariscos, um convite aviltante ao pecado, havia se transformado numa rosa murcha, sem cor. A vitalidade pulsante da alma de Laura ainda estava lá, patente, perene, mas encoberta pelos pesados véus do tempo.

- Sabe, - disse Laura, distante, pensativa, apertando os olhinho sulcados - segui aquilo que eu acreditava. Mas às vezes me pergunto, mesmo assim, se foi o certo.
- O certo às vezes é seco, amargo.
- Amargo como a morte.
- Não chora, vai.

Eliezer apareceu novamente e pegou Laura pelo braço.

- Vambora, anda. - disse.
- Olha quanto bêbado tem ali pra tu pregar. - intrometeu-se Almir. - Não enche a porra do saco!

Buf! Foi um soco de mão fechada bem no meio do rosto. O punho de Eliezer era uma grande massa marrom, calejada e disforme. Almir caiu de costas no chão e ali ficou, com o rosto banhado em sangue. Os bêbados do outro lado da rua se alvoroçaram. Parecia gol do Flamengo.

- O corno se revoltou! Êeeeee! Uhuuuu! - gritavam.

Os outros crentes abandonaram seus banquinhos e correram à toda. Os homens chegaram num pulo e trataram de cercar Eliezer. As irmãs corriam como podiam, batendo as perninhas dentro dos saiões e arrastando as sandalinhas na terra.

- Se controla, vaso de Deus. Olha o testemunho! - disse um dos homens.

Eliezer tentava se desvencilhar da confusão que se formou à sua volta, mas não conseguia. Havia crentes por todos os lados, uns repetindo palavras de consolo, outros de repreensão, mas todos falando ao mesmo tempo, sem que se pudesse entender palavra. Quanto mais Eliezer se agitava na tentativa de escapar, mais lhe seguravam. Era um besouro caído num formigueiro.

Encoberta pelo tumulto, Laura, de joelhos no chão de terra batida, sustentava o tronco de Almir entre os braços, numa pietá de beleza inefável e maldita.

28 Julho 2008

Papo de Mulher

- Homem gosta de ouvir sacanagem no pé do ouvido!
- De que tipo?
- Me come até o talo!
- E mais o quê?
- Só conheço essa.

E as duas caminhavam pela rua, compartilhando o restinho do último cigarro.

- Mas é pra dizer a sacanagem com fúria ou com jeitinho?
- Ele tem que ACHAR que deixou você maluca.
- E se deixou?
- Você pára de fingir.

E o cigarro acabou. E elas jogaram na rua, mesmo estando em frente à lixeira.

- E se ele achar que sou puta?
- Todo homem sonha com uma santa puta.
- Santa ele acha que eu sou.
- Metade do caminho.

Um velho decrépito passou por elas e olhou com cara de lobo babão.

- Homem é bicho complicado, né?
- Acho muito do simples.
- Tão simples que chega assusta.
- Queria ter nascido homem.

Pediram um cigarro ao velho decrépito. O velho deu dois. E acendeu.

- Meu ex só gozava se eu gemesse.
- Ai, que saco.
- Gravei meus gemidos pra ele em MP3. Foram dois meses de paz.
- E depois?
- Terminamos.

O velho decrépito tentava seguí-las, mas eram rápidas demais para ele.

- Já traiu?
- Já.
- É melhor?
- É.
- Uhm.

Sentaram num banco de praça. Cuspiam a fumaça no ar em forma de círculos.

- Acho que tô amando.
- Bacana.
- Será que ele me ama?
- Faz diferença?

Os cigarros chegaram ao fim. Jogaram no chão e pisaram sobre eles.

- Será que é pra sempre?
- Ai, pouco sexo pra uma vida inteira.
- Mas homem só pensa em sexo.
- Se todo ele fosse com você...

O velho decrépito quase conseguiu alcançá-las, mas foi interceptado por uma velha, que parecia lhe dizer poucas e boas.

- Melhor mudar de assunto.
- Porquê?
- Vão pensar que somos homens.
- É verdade.

23 Julho 2008

Do Tamanho do Mundo

Felipe sentia nos lábios o gosto do talento. Desde criança achava que seus dez em português eram prenúncio de algo maior. Gostava de ler grandes autores e de escrever poesias em seu blog enquanto os colegas torciam por seus times no Maracanã e enrabavam vadias no banco de trás de seus carros. Acompanhava diariamente as estatísticas de acesso de suas poesias e verificava constantemente a chegada de novos comentários, que eram sempre elogiosos, empolgados, bons de se ler. Na faculdade, conseguiu um leitor fiel para seus textos: Danilo, um magrelo, alto, com cara de manga chupada e que falava pelos cotovelos. Era chato até cansar, mas gostava de suas poesias.

Felipe entrou no banheiro da faculdade. Haviam dois mictórios. Num deles mijava Paulão, colega de classe barbudo, de voz grave e pouco dado a sorrisos. Felipe parou diante do outro mictório, abriu a braguilha e começou a mijar.

- Li algumas de suas poesias. - disse Paulão.
- Sério, cara? E aí? - perguntou Felipe.
- Achei uma merda do tamanho do mundo.

A frase parecia ter sido dita num megafone. Felipe sentiu sua pele queimar.

- Minha poesia não é pra gente como você. - disse.
- Sua poesia não é pra ninguém, cara. É uma merda. - finalizou Paulão, balançando o pinto e virando as costas.

A urina de Felipe parou de sair. Era a primeira vez que falavam assim do que escrevia. Ficou ali, estático, de pau na mão, olhando para o mármore do banheiro.

Passou a parir poesias como quem tem os dias contados. TUDO virava poesia: cocô de cachorro na calçada, pelo de barba na pia do banheiro, zunido de lâmpada fluorescente, reflexo de sol em vidro de carro... Escrevia com fúria, com desejo, forçando as emoções como se cortasse a própria carne.

- O que tá havendo contigo? - perguntou Danilo.
- Nada.
- Você mudou seu jeito de escrever.
- Mudei não.
- Tá escrevendo em maior quantidade também.
- Nada que preste.
- Mostrei algumas poesias suas pra Carina. Ela adorou.

Felipe tentou conter o sorriso mas não conseguiu. Sempre idealizou a imagem do artista resignado que exerce seus dons por uma espécie de obrigação divina. Nada de glamour, glórias e flashes. Mas o sorriso que ganhou seus lábios veio com uma avalanche de prazer. Tentava falar, mas sorria.

- Carina... Carina? - perguntou Felipe.
- É, a professora de filosofia.
- Bonita ela, né?
- Bonito sou eu, ela é maravilhosa!
- E ela gosta de poesia?
- Da sua, gosta.

Não demorou muito para que Carina viesse procurá-lo. Era uma loira oxigenada bem pra lá dos trinta, mas com um corpo que tirava todos os alunos do prumo. O número de espectadores em suas aulas sempre variava de acordo com o tamanho do decote que usava. Não que fossem vulgares, mas seus seios eram tão generosos que qualquer cortezinho na blusa se tornava um espetáculo da natureza.

- Sua poesia tem uma métrica bacana, sabe? - disse Carina.
- Você é a primeira a reparar.
- Já pensou em publicar?
- Não.
- Devia.

Publicar. Ser lido. Reconhecido. Talvez realmente, efetivamente, tivesse algum talento. Era questão de tempo.

- Meu ex-marido tem uma revista independente.
- Revista?
- Publica umas matérias, contos, poesias... Mas só escritor independente. É ele quem seleciona.

Finalmente as engrenagens do universo começavam a girar. Seus dez em português não podiam ser em vão.

Telefonou no dia seguinte para Nelson, o ex-marido de Carina.

- Então, eu escrevo poesias. - disse Felipe ao telefone.
- Hum...
- Como eu faço pra te mostrar?
- Vamos beber.
- Hã?
- Beber, cacete. Vamos beber!

Encontraram-se num boteco fétido na Lapa. Ali perto haviam bares sofisticados que tocavam samba tipo exportação para gringos perfumados, mas Nelson preferiu sentar debaixo dos arcos, em meio ao cheiro cáustico de camadas sobrepostas de uréia ressequida. Sentaram na calçada, entre maconheiros, putas e travestis.

- É daqui que vem a poesia - berrou Nelson - do ventre da humanidade! - e virou a garrafa de uísque na boca.

Felipe não sabia como se comportar diante daquela figura grosseira. Se perguntava o que Carina, a deliciosa professorinha de filosofia, havia visto nele.

- Já comeu travesti? - perguntou Nelson.
- Não!
- É bom... São menos frescos. Toma uma gole.
- Não bebo uísque.
- Bebe o quê?
- Vinho.
- Veadagem, hein? Compra uma garrafa ali então.

Felipe se levantou e foi até o boteco em frente. Um gordo de cabeça chata e com a metade da barriga escapando por baixo da camisa surrada o atendeu. Felipe perguntou as marcas de vinhos disponíveis e o gordo soltou uma risada irônica. Só havia uma e Felipe nunca tinha ouvido falar dela. Comprou o vinho e voltou para junto de Nelson, que a essa altura já havia acabado com metade da sua garrafa.

- Não come traveco e não bebe uísque. O que você faz então? - perguntou Nelson.
- Escrevo poesia.
- Sobre o quê?
- A vida.
- A vida é um cú. Do tamanho do mundo!

Felipe queria ir embora daquele lugar. Foi quando passou um travesti num salto-plataforma multicolorido. Era negro, tinha batom vermelho capeta nos lábios e uma peruca loura de fios desgrenhados na cabeça. Suava e fedia como um cão.

- Senta aqui, docinho. - disse Nelson, puxando o travesti que caiu em seu colo. Suas coxas grandes, azuladas, com pelos que despontavam aqui e ali, revelavam a musculatura masculina. - Preciso que você ensine alguns truques pra esse meu amiguinho poeta.
- Nelson, você está passando dos limites. - disse Felipe.
- A poesia não tem limites, baby.
- E o que você entende de poesia?
- Mais do que você entende de trocar suas próprias fraldas, seu merdinha!

Felipe levantou e começou a andar.

- Garoto! - chamou Nelson.
- Que foi?
- Vai beber essa merda?
- Não.
- Então deixa aqui. Meu uísque tá acabando.

Felipe voltou, entregou-lhe a garrafa de vinho e foi embora.

No dia seguinte, ao entrar na sala de aula, se surpreendeu ao ser alvo de todos os olhores. Na lousa, uma poesia sua escrita com caneta marcadora.

- Palmas pro poeta! - gritou Danilo.

Enquanto meia-dúzia acompanhou Danilo nas palmas, o restante permaneceu olhando a cena num misto de curiosidade e sarcasmo.

- Conseguiu publicar a merda das tuas poesias, cara? - perguntou um aluno no meio sala.
- Se o que você escreve é isso aí que tá no quadro, tomara que não tenha conseguido - disse outro.
- Ai, gente. Quer parar? Eu gostei. - disse uma menina do canto.

E a sala converteu-se num único e caótico debate sobre as poesias de Felipe. Todos falavam ao mesmo tempo, uns defendendo, outros atacando. Ninguém ali tinha grandes interesses por poesia, mas por polêmica sim. Danilo era o mais efusivo. Gritava e colocava o dedo na cara dos opositores. Paulão permanecia sentado, quieto, observando tudo ao redor com o queixo cabeludo apoiado sobre as mãos. De repente levantou, caminhou na direção de Danilo e desferiu-lhe um soco na boca do estômago. Silêncio súbito e absoluto. A única coisa que podia se ouvir eram os gemidos fracos de Danilo arqueado no chão. Paulão olhou na direção de Felipe, que continuava estático na mesma posição desde que entrara.

- E você?! - perguntou Paulão.

Felipe ergueu as mãos espalmadas como quem diz: "Não fiz nada, sou frouxo, não precisa me matar".

- Apaga essa merda do quadro! - ordenou.

Felipe caminhou até a lousa num passo lento, resignado, de viúva que segue cortejo fúnebre. Tomou o apagador e passou-o sobre aquelas frases que conhecia tão bem. Lembrava da escolha de cada palavra, preposição, vírgula, quebra de linha. Podia escrevê-las de cabeça. Podia escrever um livro sobre cada uma delas. Mas apagou. E nunca mais voltou a escrever.

21 Julho 2008

Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade

Meu trabalho era ficar sentado na frente de um computador recepcionando cretinos fracassados sofrendo do último resfolegar de esperança capitalista. O chamariz era um cartaz que o curso espalhou pela cidade com a foto de um cara branco, bem vestido e com sorriso cepacol, oferecendo curso profissionalizante gratuito. Mas não bastava vir até aqui e pedir o curso. No cartaz dizia que era preciso repetir a frase: "Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade". Além do cabra não passar de um fudido procurando salvação em cartazes publicitários, ainda tinha que desperdiçar sua última gota de dignidade dizendo em alto e bom som que não podia pagar por um curso que lhe daria uma profissão e, consequentemente, dignidade e grana para pagar por um curso como aquele. Mas como ele AINDA era um merda, tinha mesmo que implorar.

Achei que a promoção veio em boa hora. O curso andava meio monótono e eu acabava passando a maior parte do meu dia escrevendo estórias de sacanagem. Sim, escrevo estórias bem sacanas e mando por e-mail para algumas conhecidas, para que elas pensem que eu sou bom de cama e resolvam me dar. Até hoje, nada. Mas a Carlinha do administrativo disse que se masturbou com a estória de uma suruba no circo, envolvendo anões, macacos e mulheres barbadas. Foi o máximo que consegui. Perguntei se ela queria sair comigo, mas a desgraçada respondeu que entre dar pra mim ou pra um anão, preferia o anão.

Depois desses cartazes o curso começou a ficar movimentado. De cinco em cinco minutos entrava alguém e recitava a maldita frase. Aí eu pegava um formulário de quatro páginas, que perguntava até se o cara tinha oxiúrus, e dava para o merda em questão preencher. Mas como eu só tirava seiscentas pratas naquela droga de emprego e a maior promoção que eu poderia conseguir era para o administrativo, onde eu ganharia setecentas pratas e passaria o dia digitando aqueles malditos formulários pra saber quem tinha oxiúrus e encaixando fracassados em turmas de cursos gratuitos, resolvi me divertir um pouco. O anúncio não dizia que a pessoa TINHA que repetir exatamente a frase, nem fomos orientados pela direção a exigir isso, mas os cretinos que apareciam ali eram tão fracassados que arriariam as calças se eu mandasse. Mal sabiam que o curso gratuito não passava de um introduçãozinha para o curso de verdade, que era - óbvio! - pago.

Entrou um grisalho de roupa social e aparência digna. Se dirigiu a mim com um ar todo respeitoso:

- Bom dia, meu jovem. Estou interessado naquele curso gratuito que foi anunciado.
- E a frase?
- Que frase?
- Tem que dizer a frase.
- A do anúncio? Desculpe, mas não me lembro.
- Lá diz que tem que repetir a frase.
- E qual é?
- Não posso dizer.
- Mas que diferença faz?
- Regras são regras.
- Eu vi o anúncio num outdoor, mas não lembro onde.
- Tem um na Rua Monsenhor Félix.
- Tão longe?
- E nesse sol, né?
- Já volto.

Vi nos olhos dele o desejo selvagem de mandar eu me fuder, mas não mandou. Saiu porta afora. Logo depois entrou uma gorda de uns vinte anos. Nossa! Vinte anos e gorda. Fiquei me perguntando se alguém comia aquela garota. Os melhores anos de uma mulher soterrados debaixo de toneladas de gordura. Na melhor das hipóteses vai casar virgem aos trinta com um cara que enjoou de comer as magras e resolveu comprar uma casa financiada e um cachorro de petshop. Para uma vida dessas nada melhor que uma esposa gorda.

- Quero Ganhar Educação Profissionalizante de Qualidade e Gratuita.
- Tá errado.
- O que tá errado?
- A frase. Não é assim.
- Como não? Eu decorei!
- Escuto essa frase centenas de vezes por dia. Sou capaz de dizê-la tendo um orgasmo.
- Então como é?
- Pra ter um orgasmo? Primeiro emagrece.
- Como é A FRASE!?
- Não posso dizer.
- Acho que é "Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade".
- Agora sim.
- Onde eu preencho?
- Já era. É uma chance só.
- Não diz isso no anúncio!
- Pra quê vamos gastar dinheiro profissionalizando alguém que não consegue decorar uma frase de oito palavras? Sinto muito, minha filha.

Saiu batendo porta. É incrível como ninguém mandava eu me fuder. Meia-hora depois voltou o grisalho. Tinha a testa, o pescoço e a camisa inundadas de suor.

- O senhor está fedendo. - eu disse.
- Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade.
- Preenche isso aqui.

Ele ficou lá, escrevendo e bufando e pingando seu suor fedido.

- Nunca conheci alguém tão desprezível quanto o senhor. - ele disse.
- Sabe, acho que vou usar sua ficha de cadastro pra limpar a bunda.
- O senhor... me desculpe.
- Acho que vou ao banheiro. - eu disse, levantando com o cadastro dele na mão.
- O que mais o senhor quer?! Que eu beije seus pés? Eu beijo.
- Pode ir. Vou entregar sua ficha.

O homem continuou ali, parado, me olhando.

- Pode confiar, cacete! Eu tô falando.

Enfim o homem, desconfiado, deu meia-dúzia de passos vagarosos para trás até cruzar a porta. Aquilo me deprimiu. Rasguei a ficha dele e joguei no lixo. Saibam que isso foi um ato de respeito.

Dias depois eu estava entretido com minha nova estória sobre russas peitudas e americanos babacas que se encontravam numa estação espacial e faziam suruba em gravidade zero. Acho que a Carlinha vai gostar dessa. Eram quase oito da noite e eu estava sozinho no curso. O gerente tinha saído mais cedo e pedido pra eu fechar tudo. Faltava pouco pra eu terminar mais uma obra-prima da putaria literária bagaceira. Bem na hora de fazer a porra flutuar no espaço, entraram duas garotas correndo, saltitando e sorrindo como gazelas no cio. Com sorte tinham dezoito. Morenas, cabelos longos, calças coladas - bendita seja a era do stretch! -, topzinhos coloridos devidamente tensionados contra os seios recém inflados pela mãe-natureza.

- Fechou? - perguntou a mais gostosa.
- Fechou. - respondi, seco.
- A gente queria aquele curso gratuito.
- E a frase?
- Não falei que precisava da frase? - disse a menos gostosa à mais gostosa.
- Além do mais a promoção era só até hoje. - eu disse, mas era mentira. - E a procura foi tão grande que nem sei se adianta inscrever vocês.
- Ai, meu pai vai me matar! - disse a mais gostosa -Ele está há duas semanas dizendo pra eu vir aqui me inscrever.
- O meu também. - disse a menos gostosa.
- Nesse caso acho melhor vocês se mudarem lá pra casa. - disse.

Elas soltaram aquela risadinha de mamãe-quero-ser-puta.

- Então, - disse a menos gostosa (que a essa altura também era gostosa pra caralho, ou era o sangue que me faltava no cérebro por estar indo aos litros rumo aos países baixos) - você tem como inscrever a gente, assim, tipo, se você quiser, né?
- Mas por que eu ia querer um troço desses?

Bem, o resto vocês já podem imaginar. Talvez não que eu tenha levado as duas pra sala do gerente. Garanto que comer duas molecas safadas na sala do chefe é melhor que gravidade zero. E elas ACABARAM comigo. Eram insaciáveis. Bocas, pernas, mãos e línguas me derrotando a cada instante. Num dado momento as duas desistiram de mim e ficaram lá, se pegando entre elas, enquanto eu, jogado no canto, sugado, extenuado, seco até o talo, só gemia e pedia clemência.

Alguns dias depois o gerente me chamou na sala dele. Isso nunca acontecia.

- Serei processado por duas jovens que afirmam terem sido coagidas a fazer sexo em troca de nosso curso gratuito. - disse o gerente.
- Elas são menores?
- Não.
- Então?
- Você transou com elas?
- Sim.
- E diz isso com essa cara deslavada?!
- Elas pediram. O senhor também comeria.
- Sou pai de família! Veja lá como fala!

Não conseguia ficar nervoso nem nada. Ele estava justamente na cadeira que eu estava quando as duas sentaram em cima de mim. Na mesa onde ele repousava pomposamente os cotolevos, as duas tinham se lambido como loucas. Aquela sala só me trazia boas lembranças.

- Você nos deve um pedido público de desculpas! - ele gritou. - Várias pessoas estão aparecendo com denúncias de constrangimento, humilhação e o diabo.
- O senhor vai me demitir?
- Mas o que você acha? - disse com a voz esganiçada. Seu ar já estava acabando. Seu olhar tinha o mesmo brilho selvagem dos olhos do senhor grisalho.
- Então enfie suas desculpas no rabo!

Levantei e fui embora. Alguns dias depois havia uma página inteira de jornal tomada por um comunicado público: O curso gratuito havia sido suspenso, mas todos os ofendidos receberiam bolsas de cem por cento no curso que escolhessem. Se somar a quantidade de gente que apareceu reclamando, eu devo ter feito 346 surubas e 126 ménage à trois, fora a gorda ofendida. Mas no fim das contas acho que espalhei um pouco de dignidade por aí.

18 Julho 2008

A Suíte Presidencial

- Não volto mais pra casa! - ela gritou ao telefone, desligando-o em seguida.

Camila estava no último banco do ônibus, mochila no colo. Tinha uns vinte, mas aparentava quinze. Olhava o próprio reflexo no vidro da janela, sua expressão enfurecida.

- Merda! - dizia para si mesma - Queria chorar!

Chegou ao ponto final do ônibus por volta da meia-noite. Perguntou aos poucos funcionários que ainda estavam por ali onde poderia encontrar uma pensão ou lugar para passar a noite. Um motorista indicou-lhe um hotelzinho a duas quadras de distância.

- Lá só vai puta, - avisou o motorista. - mas é o único que eu conheço. Você é puta, minha filha?
- Não.
- Que pena.

Camila agradeceu e rumou pra lá. Chegou a um sobrado de fachada enegrecida onde uma placa de letras mal pintadas anunciava a hospedaria. Bateu na porta de madeira quase podre, que só foi aberta algum tempo depois por um senhor baixo, magro, de ralos cabelos brancos e que pela expressão havia sido acordado a contra-gosto pelas batidas.

- Pensei que hoje eu teria um pouco de paz. - resmungou para si - O que você quer, minha filha?
- Um quarto.

O velho abriu mais os olhos que ainda se acostumavam com a luz para estudar a moça.

- Você não tem cara de puta.
- Eu não sou.
- Aqui só vem puta, minha filha.
- Eu sei, mas preciso de um quarto pra passar a noite.

O velho abriu a porta e os dois entraram. A recepção não passava de um balcão de madeira expremido ao lado da escada. O lugar inteiro parecia ter mal hálito.

- Você tem dinheiro, minha filha?
- Tenho.
- Muito ou pouco?
- Pra isso aqui, - disse ela olhando em volta - acho que muito.
- Então vou te levar à suíte presidencial.

Subiram dois lances de escada e andaram até o fim de um longo corredor mal iluminado. O carpete era sujo. Havia guimbas de cigarro por todos os cantos. Era possível distinguir a suíte presidencial pela distância maior de sua porta para as outras. Era porta, porta, porta, não-porta, suíte presidencial. Além disso, a porta era de uma imitação de mogno, enquanto as outras não passavam de um branco encardido.

- Esse aqui só é usado quando vem vereador, cantor... - disse o velho, orgulhoso, enquanto abria o quarto.

Na cama, uma mulher gorda aparentando seus quarenta anos, trajando um hobby que imitava pele de onça, ressonava como um anjo glutão. O velho, como visse um mosquito, deu-lhe um tapa de mão cheia em plena nádega direita que ecoou pelas paredes do quarto.

- Acorda, sua porca imunda! - gritou o velho - Quantas vezes já te falei pra não dormir aqui?! Na presidencial não!

A mulher levantou atordoada, começou a recolher o restante de seus trajes que estavam pelo chão e saiu porta afora, sem sequer levantar os olhos.

- Essa é a Diana. - explicou docilmente o velho - Mora muito longe. Quando não consegue programa deixo ela dormir por aqui.
- Mas não tá na hora dela pegar no batente?
- Devia ser o soninho da beleza. Hé-hé.
- Só troca o lençol, por favor.
- Você tá com fome, minha filha?
- Não tinha reparado, mas estou.
- Tem um bar na próxima esquina. É onde as meninas conseguem programa. Tem um bolinho de bacalhau muito bom. Vai lá enquanto eu limpo essa bagunça. Põe na conta do Seu Gerânio.

Camila desceu as escadas que pareciam ainda mais escuras que antes, saiu do hotel e passou a caminhar pela rua praticamente deserta. Só se via uma mulher que caminhava à sua frente. Era Diana, agora trajando um vestido de veludo vinho bem apertado e botas de couro pretas que iam até perto do joelho. Caminharam uma diante da outra por todo o quarteirão, quando Diana achou que estava sendo alvo de uma perseguição. Virou-se e trotou na direção de Camila.

- Qual é a tua, hein!? - gritou Diana. - Já me expulsou do quarto e agora quer o quê?
- Só estou indo ao bar que tem ali.
- Roubar meus clientes!
- Eu não sou puta.
- Eu também não era.
- Meu nome é Camila. - disse, estendendo a mão.

Diana não respondeu. Virou e se pôs a caminhar. Camila apressou o passo e emparelhou com a outra, que pareceu aceitar passivamente a companhia. Deram uma dúzia de passos caladas.

- Seu Gerânio disse pra eu beber na conta dele. - disse Camila.
- Sério? Faz tempo que eu não tomo um porre.
- Será que a gente descola uns Bloody Mary por lá?
- Minha filha, a melhor coisa do mundo é porre de cachaça.

No bar, um pagode brega tocava no último volume. O ambiente era pequeno e uma luz avermelhada banhava tudo. Não havia pista de dança. Existiam dezenas de mesas amontoadas, todas cheias. Era difícil entender como as pessoas chegavam e saíam das mesas, tão juntas que eram umas das outras. Só haviam duas classes de pessoas: homens e putas.

- Essa aqui - disse Diana ao balconista, apontando para Camila - hoje tá na conta do Gerânio!
- Sei... Tô cansado das tuas conversinhas, Diana. - respondeu o balconista.
- Não vou gastar meu latim com você. Liga direto pro velho!

No minuto seguinte estavam degustando uma pinga lancinante. Camila deu uma boa golada e quase caiu para trás. Diana gargalhou.

- Cuidado, pituquinha. Isso é bebida de adulto - brincou.
- Mais uma! - pediu Camila com um tapa no balcão, depois de secar o copo num trago.
- Se eu me arrumar por aqui não vai ter ninguém pra te levar de volta pro hotel, hein?
- Ah, isso eu duvido.

Não demorou para que um homem se aproximasse. Era alto, parrudo, tinha pescoço grosso, cor caramelada e um grande vão entre os dois dentes da frente.

- Quem é a bonequinha? - perguntou o homem, referindo-se a Camila.
- Não é profissional. - respondeu Diana.
- Pra debutante eu pago o dobro.
- Em quanto fica esse dobro? - perguntou Camila.
- Cem pratas.

Camila soltou uma gargalhada.

- Nem fudendo, seu merda! - respondeu.

Tudo que viu foi a grotesca mão do homem erguendo-se no ar. Depois, breu e gosto de sangue na boca. Recobrou os sentidos no chão, recostada na madeira do balcão do bar. Alguém havia lhe arrastado até ali. Olhou ao redor. Todos bebiam, riam e cortejavam suas putas na mais perfeita paz. Ouviu uma gargalhada e olhando para cima viu os dantescos quadris de Diana sentada num banco. Levantou cambaleante e sentou-se ao lado dela. O homem parrudo estava do outro lado.

- Serve uma pinga pra moça! - disse o homem - e traz um pano pra ela limpar a boca.

O balconista trouxe um copo de cachaça e um paninho encardido. Camila virou o copo na boca. Ardeu como o inferno. Ela gemeu.

- Nem fudendo... - repetiu o homem para si. E começou a gargalhar.

Diana também começou a rir. Camila tentou, mas a boca doía. Ficaram ali sentados, os três, rindo e bebendo até não se sabe que horas.

Camila acordou, ainda de olhos fechados, com duas dores ferozes lhe disputando, uma na cabeça - "Então ISSO é porre de cachaça?", pensou - e outra na boca. Pediu a Deus para morrer ali mesmo. Que fosse para o inferno, duas dores era demais. Sentiu peles geladas por todos os lados. Abriu os olhos e percebeu que estava na cama do hotel, Diana de um lado e o homenzarrão do outro. Um fedor imperioso enchia o quarto numa mistura asquerosa de suor, álcool e mofo. Não conseguia se mover. Estava soterrada por braços flácidos e pernas recheadas de banha. Os dois roncavam como um coral suíno. Sentiu ânsia de vômito ao notar que a vagina ardia. Queria matá-los a golpes de pá de lixo, desentupidor de pia ou coisa menos glamurosa. Foi rastejando entre os dois corpos inertes para o hemisfério sul do colchão até conseguir sair da cama.

Ficou ali, de pé, nua, diante da cama, observando aquela pororoca do inferno. Riu. Olhou ao redor procurando alguma coisa até que achou a capanga de couro marrom do homem. Abriu e tirou cem reais. Depois pegou o telefone e discou um número de cabeça. Atenderam do outro lado.

- Agora sou uma puta, você ainda me quer? Tá, então tô voltando pra casa.

10 Julho 2008

Corpo e Só

Dia 1

O metrô abarrotado parou na estação. Na entrada do vagão havia uma massa concreta de pessoas que por pouco não foi ejetada com a abertura das portas, mas este já seria meu terceiro trem perdido. Ao meu lado, uma branquinha dos cabelos negros e olhos vivos abraçada à sua pasta me olhou com cara de desânimo. Para ela também seria o terceiro. A sirene que sinaliza o fechamento das portas soou. Ninguém havia tentado entrar. Juntei forças e me joguei contra a parede humana. Surpresos com minha brutalidade, os passageiros abriram espaço suficiente, naquelas circunstâncias, para mim e para alguém pequeno como a garota, que se animou e entrou, encaixando-se em mim. Ela estava quase caindo para fora do vagão quando a porta começou a fechar. Passei meu braço por sua cintura e a puxei ainda mais para mim. A porta fechou. Ela tentou disfarçar virando o rosto, mas vi que sorriu.

Dia 2

Lia, era o nome dela. Estudava administração. Estava no sétimo período. Tinha um carro. Tinha um noivado, que acabou, ou meio que acabou, há algumas semanas. Não me interessei por suas tragédias pessoais. Não me interesso pelas minhas. Nosso papo corria solto enquanto o chope descia gelado. Ela tinha um rostinho redondo e um nariz que parecia encaixado no meio dele. Era magra, mas tinha corpo. Os olhinhos pareciam sempre molhados, brilhantes.

- Mas e você? Me fala de você! - ela disse.
- Melhor falar de política, futebol...
- Mas você já sabe tudo sobre mim.
- Só o que você quis que eu soubesse.
- Então diz o que você quer saber.
- Me diz uma música que faz você chorar.
- "Outro Alguém".
- Pronto, agora sei tudo sobre você. - e ela riu. - Vamos para um lugar mais aconchegante.
- Tá louco. Nem te conheço.
- Nem vale a pena conhecer.
- Assim, no primeiro encontro...
- Não vai haver um segundo.

O rostinho dela empalideceu. Os olhos brilhavam tanto que eu pensei que ela fosse chorar. Só depois me acostumei, eles estavam desse jeito o tempo todo.

- Melhor assim. - ela disse.

Pegou a bolsa e levantou. Mal tive tempo de deixar uma nota sobre a mesa pagando a conta e de correr atrás dela.

Ela fazia sexo com raiva, o que contrastava com seu corpo delicado, suas unhas pintadas de rosa, sua tatuagem de flor na entrada do púbis. Por várias vezes tentei diminuir o ritmo da coisa, mas ela sempre acelerava, acelerava. Foi bom, mas acabou rápido. Ela parecia ter pressa. De saída, me disse:

- Obrigada. Você me ajudou muito. - fechou a porta e se foi. Não deixou telefone, e-mail, nada.

Dia 3

Eu não tinha pressa, sabia que nos encontraríamos no metrô e em pouco mais de duas semanas minha profecia se cumpriu. Ela sorriu ao me ver. Esquecemos o metrô e seus muros humanos e fomos direto a um bar.

- Meu ex me procurou. - ela disse. - Mandei ele pro inferno.
- Olha que viver sozinho não é fácil.
- A gente nunca tá sozinho.
- Não enquanto existir o metrô.
- Sabe, eu ainda tava noiva quando a gente saiu daquela vez. Tava infeliz, mas não tinha coragem de terminar.
- Coragem às vezes é insistir.
- Vem cá, não tô te entendendo. Você quer que eu volte pra ele?!
- Desde que seja só amanhã de manhã.

O sexo foi calmo dessa vez. Ficamos horas. Parecia aquela coisa tântrica. De quando em quando ela apertava os olhos e se arrepiava todinha. Era um belo espetáculo pra se apreciar. Decidimos que era uma boa ocasião para trocarmos telefones. Não é todo dia que se encontra sexo casual de qualidade dando sopa por aí.

Dia 4

Logo no dia seguinte o telefone tocou. Eram 7 da manhã. O carro dela não queria pegar e ela tinha uma entrevista de emprego às 9. Fui buscá-la. Ela morava numa casa bacana de subúrbio. Veio toda bem vestida, maquiada, perfumada, cabelo solto. Se um dia eu fosse casar, ia querer uma mulher assim.

- Se arrumou pra conseguir emprego ou marido?
- O que você acha?
- Como esposa eu te contrataria. – e ela riu.

Saí com o carro e começamos a rodar.

- Tô nervosa. Já estou passando da época de estagiar. Não agüento mais.
- Uhm.
- Minha mãe vive dizendo que eu sou mole demais pra essas coisas.
- É assim mesmo.
- Mas meu pai trabalha numa empresa grande e não arruma nada pra mim. Pode isso?
- Pois é.
- Pro meu irmão ele conseguiu um estágio rapidinho. E olha que ele é mais novo que eu, hein?
- É fogo.
- Preciso conseguir logo uma grana só pra mim. Meu pai é muito pão-duro e eu não gosto de depender dos outros.
- Ô...
- Também não posso reclamar. Quando o assunto é estudo, ele não economiza.

Estávamos próximos a uma estação do metrô. Freei o carro.

- Desce, vai. - eu disse, em tom de quem não negocia.
- Como assim?
- Me telefona quando quiser sexo.

Permaneci olhando para frente. Seus olhos deviam estar brilhando. Não queria olhar para eles. Os carros atrás de nós começaram a buzinar e só ouvi o ruído do cinto sendo desatado e o estrondo da porta batida com fúria.

Dia 5

No sábado telefonei pra ela. Perguntei se queria dar uma passada no meu apartamento para curtirmos a noite. Ela foi. Calça jeans, rabo-de-cavalo, nenhuma maquiagem, algum desodorante anti-transpirante e só. O sexo foi rápido e nervoso. Saí todo arranhado. Fomos comer alguma coisa depois. Ela não dizia nada.

- Olha, sei que fui um cavalo. - eu disse.
- Não quero suas desculpas.
- Na verdade, é mais uma explicação.
- Melhor deixar como está.
- Você é uma garota bacana pra cacete e...
- O que você quer afinal?!
- Nada. Vamos comer.

O bar tinha música ambiente e começou a tocar "Outro Alguém". Ela continuou comendo, impassiva. Na saída, perguntei se ela queria dormir lá em casa, já que estava tarde. Ela não se deu ao trabalho de responder. Entrou num táxi que estava parado na rua e partiu.

Dia 6

Alguns dias depois, meu telefone tocou. Ela foi curta e seca: queria me encontrar. Porém, exigiu duelar em campo neutro e nos encontramos num motel de beira de estrada. O sexo voltou a ser tântrico. Eu já não sabia o que esperar daquela mulher.

- Você me ensinou muita coisa. – ela disparou.
- Tipo?

Silêncio. Ela parecia pensativa.

- Voltei com meu noivo. - disparou.
- E o que foi que eu te ensinei, cacete!?
- Esquece... Me beija.

E a gente se beijou. Um beijo quente, forte...

- Foi nosso último. – ela disse.
- Isso foi um tipo de despedida de solteira? – perguntei, atônito.

Ela se levantou. Seu corpinho desenhou uma silhueta graciosa na meia-luz. Eu não sabia o que fazer.

- Troquei de telefone. - ela disse - Você não me acha mais.
- A gente se vê no metrô.
- Me mudei. Não pego mais metrô.
- Por que isso tudo?
- Tudo tem que ter por quê?
- Decidiu voltar à velha vidinha fiel de sempre?
- Eu tenho uma vida!
- De merda!
- Mas tenho!
- Fica comigo.

Ela segurou meu rosto entre as mãos, os olhinhos brilhavam. Eu sempre achava que ela ia chorar.

- Não estraga, vai. – ela disse. – Não estraga.

E se foi.

08 Janeiro 2008

Esse Tal Ventre

Eu não via Marcelo há anos. Nossa! Como ele estava diferente. Mais magro, bem vestido, totalmente livre das espinhas e daquele aparelho horroroso nos dentes.

- Não acredito! – eu disse.
- Alice... – ele meio que sussurrou e abriu um baita sorriso. Um sorriso delicioso.
- O que você tá fazendo aqui?
- Eu estudo aqui.
- Há quanto tempo?!
- Uns quinze minutos.

Marcelo... Havíamos estudado juntos no segundo grau. Ele foi forçado pelos pais a cursar engenharia, enquanto eu fui estudar letras.

- E o que houve com a engenharia? – perguntei.
- Era ela ou minha sanidade.
- E no que você veio se matricular?
- Letras.
- Doido! E teu pai?
- Tá pirando, coitado. Disse que eu tô sendo infantil ao trocar uma carreira por um hobby.
- Não esperaria menos dele.
- Só não precisava me tomar o carro.

O pai do Marcelo era engenheiro. O avô do Marcelo era engenheiro. Não tenho certeza, mas o bisavô também devia ser.

- Vamos tomar um chope depois da aula?
- Tô cheia de trabalhos pra fazer.
- Ah, larga de ser Caxias! Um chope não tira pedaço.
- Hoje não. Outro dia, quem sabe.

Eu estava doida para pular no pescoço dele, mas resolvi segurar a onda. Éramos mais velhos, mais maduros e bem-resolvidos. Bastava deixar as coisas seguirem seu curso natural e a velha paixão adolescente reassumir seu posto.

Estávamos em turmas diferentes, eu no quinto período e ele no primeiro, mas todo intervalo entre as aulas a gente aproveitava pra conversar. O papo entre a gente simplesmente fluía, era automático. Sempre foi assim.

- Viu o filme que passou ontem? – ele perguntou.
- Detesto Antonioni.
- Sua herege!
- Vai me dizer que você entende?
- Não é pra entender, é pra sentir.
- Sua bicha!

Ele riu. Ele sempre ria.

- Hoje sai nosso chopinho? – perguntou Marcelo.
- Sabe que não tô nem bebendo mais? Dei uma parada boa mesmo.
- Entendi.

Acho que errei a mão.

Algum tempo depois ele me apresentou uma colega de turma chamada Roberta. Bonita, a desgraçada!

- Roberta, Alice. Alice, Roberta. – disse Marcelo.
- E aí, Roberta? Gostando do curso? – perguntei.
- Não imaginava que fosse tão pesado. Como sempre gostei de ler, pensei que seria mais fácil.
- E o que você costuma ler?
- Ah, de tudo! Barbara Delinsky, Norah Roberts, Danielle Steel...

Fiquei me segurando pra não rir. Não dava! Marcelo e eu passamos o segundo grau inteiro debruçados sobre Faulkner, Blake, Hemingway, Proust etc. Simplesmente detestávamos os top 10 de livraria. Marcelo percebeu minha dificuldade e tratou de chamar a atenção da garota.

- Você já leu aquele “Desvendando o Código da Vinci”?
- Ainda não. É bom? – disse Roberta.
- Ouvi dizer que é ótimo!

Aí não teve jeito. Caí na gargalhada. Roberta estava prontinha pra fechar o tempo, mas Marcelo abriu malandramente o zíper da calça enquanto eu ria. Quando ele olhou pra baixo e fechou o zíper fingindo estar sem graça, a menina achou que era dele que eu ria e estampou um sorrisinho sem graça.

Roberta começou a nos acompanhar nos intervalos das aulas. Tinha um rostinho arredondado, nariz fino, corpinho pequeno e tudo, tudo muito bem distribuído. Marcelo estava começando a ficar encantado. O jeito como ele sorria pra ela era o jeito que sorria pra mim há dois anos. Às vezes eu descia voando até o pátio para tentar pegá-los ainda por perto, mas eles já estavam caminhando, distantes, entretidos em altos papos. Não demorou pra ele me dar a notícia.

- Tô saindo com a Roberta. – ele disse.
- Legal.
- Tudo bem pra você?
- Porque não estaria?
- Só perguntando...
- Vai fundo. Ela é linda.
- Nunca tive uma mulher tão bonita.
- Muito gentil de sua parte.
- Não banque a imatura! Falo assim, abertamente, porque me sinto à vontade com você.
- Foi só uma piada.

Acho que fui promovida àquele tipo de amiga sapatão com quem um homem pode comentar à vontade sobre a gostosura das outras mulheres.

- Esse tipo de beleza mexe com o baixo ventre. – ele disse – Faz a gente lembrar que é carne.
- Será que ela topa um ménage à trois?
- Você bem que devia arrumar um gatão de academia.
- E ler O Código da Vinci ilustrado na caminha pra ele dormir?
- Você não presta!
- Nunca disse que prestava.

Flauta encantada uma ova! Com uma única bunda bem redondinha você arrasta todos os homens desse mundo até o inferno.

Um dos professores passou um trabalho sobre Faulkner na turma deles. Eu sabia mais sobre Faulkner que qualquer professor daquela faculdade e Marcelo sabia disso muito bem, tanto que me pediu ajuda.

- Quebra essa, vai? Leva Roberta pra tua casa e faz um apanhado da obra do cara.
- Vou precisar de uma lousa.
- Pára com isso. Ela é mais esperta do que você imagina.
- E você não vai por quê? Tá com medo de mim?
- Meu pai tá pegando no meu pé. Me obrigou a resolver uns problemas lá na empresa. Ele tá impossível.

As tardes lá em casa eram animadas. Roberta era realmente mais esperta do que imaginava. Entendia tudo de bate-pronto. E ainda era um bocado divertida, cheia de histórias sobre namorados, paqueras, pretendentes, ficantes e toda essa mitologia da qual eu sempre ouvi falar. Quanto a mim, só tive um namorado antes de Marcelo e nenhum depois.

- Sabe o Professor Gilberto? – ela perguntou.
- Nunca vi professor de literatura com tronco mais largo. Deve ter sido nadador.
- No final de toda aula ele vem e solta uma piadinha.
- De que tipo?
- Ontem ele perguntou se eu tinha lido um livro chamado “Descrédito”, “Desmérito”, não lembro.
- “Desonra”?
- Isso!
- Onde o professor tem um caso com a aluna e é expulso da faculdade...
- Ele disse que leu esse livro aí e ficou com medo de eu arruinar a carreira dele.
- E o que você respondeu?
- Que ele pode ficar tranqüilo, porque se depender de mim ele sempre vai ter a maldita carreira e esses livrinhos de sacanagem com alunas pra ler.

Tá aí. Gostei dela.

No fim das tardes a gente descia até o bar do Sr. Ferreira pra comprar umas cervejas. O bar parecia intocado pelo tempo, tinha um aspecto fétido, mas vendia a cerveja mais gelada das redondezas. Sr. Ferreira era um era sessentão asqueroso, sempre com um pano de prato imundo pendurado no ombro.

- Oi, Alice. – ele dizia.
- Oi, Sr. Ferreira. – eu respondia.
- Ooooooooooi, princesa. – ele dizia pra Roberta.

Velho descarado!

Na faculdade, Marcelo tomava conhecimento do avanço do trabalho sobre Faulkner e falava do retrocesso em seus problemas com o pai. Ele sempre dava um jeito de se livrar de Roberta e vinha desabafar comigo.

- O velho tá ficando doido. Todo dia, antes de eu vir pra faculdade, a gente quebra o pau.
- Essas tardes que você tá passando na empresa não estão resolvendo?
- Ele quer que eu me envolva mais, mais e mais. Nunca vai ser o bastante pra ele.
- Eu sei que é teu pai, mas dá vontade de mandar pra aquele lugar.
- Mandei ontem.
- E?
- Cortou minha mesada.

O pior ainda estava por vir.

- E o pior – ele disse – é que não tenho mais como curtir esse momento legal que tô vivendo com a Roberta.
- Como assim?
- Você sabe...
- Não.
- Essa coisa toda de... Ah, você sabe!
- Não.
- A gente quer se curtir, mas...
- Não entendo.
- Fiquei sem grana pro motel, caralho!
- Agora entendi.
- É importante pra mim. É o meu momento!
- Do baixo ventre?
- Esquece! Você não tem como entender.
- Porque não sou gostosa?
- Quem tá pra baixo aqui sou eu, Ok? Espera tua vez.
- Ok.

Silêncio. Talvez fosse minha vez.

- Tua mãe ainda chega do trabalho tarde da noite?
- Ah, não! Minha casa não é motel, Marcelo.
- Pra gente era.
- Pra gente era!

Definitivamente era minha vez. Virei as costas e fui embora.

À tarde, Roberta apareceu lá em casa como de costume. Pediu pra sentar no sofá da sala. Sentamos uma de frente pra outra. Ela tinha uma expressão compenetrada, digna, resignada. Parecia até aquelas cenas de novela onde acontecem as grandes revelações. Tenho certeza que ela viu muitas.

- Imagino como você está se sentindo. – ela disse.
- Nossa! Como me sinto melhor agora que você imagina.
- Marcelo contou-me a respeito do ocorrido nesta tarde e estou deveras decepcionada.

Sim, ela estava falando de um jeito empolado.

- Ótimo! – eu disse – Você veio perguntar o preço?
- Vocês são tão amigos. Não entendo onde ele estava com a cabeça.
- Acho que o quarto da mamãe vai cair como uma luva pra vocês!
- Alice!
- Queira acompanhar-me, senhorita. Vou lhe mostrar o aposento onde poderão foder à vontade!

Me levantei. Ela continuou sentada. Paralisada.

- Não faz assim, Alice. Por favor. – ela disse.

Suas feições delicadas de menina se contraíram, os olhos castanho-claros brilhavam tremulantes, as mãos pequenas apertando os joelhos dourados. Ela estava toda naquele momento, naquela posição, naquele olhar. Ela acreditava e era impossível não acreditar junto. Então entendi o maldito poder da beleza de nos sugar para ela.

- Você não tem culpa do que o idiota do Marcelo falou. – eu disse.
- Eu terminei com ele.
- Não! Isso não! É o momento dele! É o momento do... Do ventre!

Não sei o que me deu.

- Do que você tá falando?! – ela disse.
- Você não entende. Ele precisa!
- Calma, Alice!
- Cadê o telefone? Telefone! Telefone!

Fiquei meio descontrolada. Senti que Marcelo estava perdendo algo importante, algo que não era possível entender só com a mente. Liguei pra ele, estava na empresa do pai. Mandei que viesse imediatamente. Meia-hora depois ele estava lá, com a testa suada e olhos arregalados. Devia estar pensando que eu tinha picado Roberta e guardado os pedaços em potinhos tupperware.

- Você tem três horas – eu disse a Marcelo – pra baixar o facho dessa doida e curtir ao máximo... por nós.

Beijei seus lábios, saí e tranquei a porta.

Só depois me dei conta de que não tinha idéia de aonde ir. Fiquei parada em frente à porta ouvindo algumas frases da discussão que se desenrolava.

- Eu não vou transar com você aqui... nem em lugar nenhum! – ela gritava.
- (Marcelo disse algo que não consegui ouvir).
- Não quero saber! Não encosta a mão e mim!

A maçaneta da porta se mexeu. Ela estava tentando sair. Ouvi os passos de Marcelo se aproximando.

- Alice é uma irmã pra mim! – ele disse – Foi grosseiro da minha parte, eu admito, mas me sinto tão à vontade com ela que acabei sendo estúpido.
- Porque a porta está trancada?
- Alice trancou.
- Alice! Abra essa porta!

Bum! Bum! Bum! Ela batia. Eu já estava pondo a chave na fechadura.

- Ela volta daqui a três horas. – ele disse.
- Não acredito que você...
- Foi idéia dela! Você tava junto quando ela me ligou.

Daí em diante baixaram a voz. Depois começaram a sussurrar. Não consegui escutar mais nada. Minha boa ação estava feita. Sentei com as costas apoiadas na porta, braços sobre os joelhos, cabeça pendendo dos ombros.

Perdi a idéia de tempo. Me senti patética. Chorei. Me senti ridícula por chorar. Me senti auto-indulgente. Me pus no lugar de Marcelo. Me pus no lugar de Roberta. Meu ponto de vista não valia a pena. Imaginei os dois rolando no tapete da sala. Imaginei nós dois rolando ali. Lembrei de todos os livros que li. Inúteis, no fim das contas, se nada podem contra esse tal ventre.
Pela janela do corredor vi que anoitecia. Bati na porta, abri e entrei pé ante pé. Roberta saiu do banheiro com os cabelos molhados. Baixou os olhos.

- Nossa! Que vergonha. – ela disse.
- Duvido que você estivesse com essa vergonha toda há meia hora atrás.

Ela riu.

- Obrigada. – ela disse - Por tudo...
- Qualquer mulher do mundo faria exatamente o mesmo no meu lugar.
- É verdade...

Para ironias, pelo menos, ela era completamente virgem.

Roberta resolveu ir embora. Encontrei Marcelo no meu quarto, deitado na cama, sem camisa, parcialmente coberto pelo lençol e com uma baita cara de satisfeito.

- Barriguinha cheia, bebê? – perguntei, passando a mão em seus cabelos.
- Senta aqui do meu lado.
- Segundo tempo?
- Tenho mais idade pra isso não.
- Frouxo!
- Você não existe, sabia?
- Devo não existir mesmo. Só pode.
- Quer casar comigo?
- Não. Quero casar com a Roberta.
- Põe um filme aí pra gente.
- Tá, mas Antonioni não!

Ficamos lá, assistindo um filminho italiano, tomando cerveja e jogando conversa fora, como nos velhos tempos.

Acabou virando rotina. Roberta ia lá pra casa à tarde, eu a ajudava em algum trabalho da faculdade, descíamos, comprávamos cervejas, conversávamos, ríamos, Marcelo chegava, eu saía, eles transavam, Roberta ia embora, eu voltava, encontrava Marcelo deitado na cama com cara de satisfeito, conversávamos, ríamos e bebíamos cerveja até altas horas. Foi assim até eu me formar. Depois disso a rotina acabou. Vejo Marcelo muito raramente. Ele terminou o namoro com Roberta assim que paramos de nos ver. Me pergunto quem foi a outra nessa relação.

18 Novembro 2007

A Sublime Arte da Letargia

Anselmo, sentado em sua mesa de trabalho, observava pela janela os prédios do centro do Rio, seu matiz cinza, seus ângulos retos, suas formas impessoais. Eram três horas da tarde, faltavam duas para o fim do expediente. Alimentava a doce ilusão de que por muito gastar os prédios com os olhos, apressar-se-iam os ponteiros do relógio e sua imprecisa engrenagem de condução dos tempos e momentos. Espiava os objetos à sua volta: o bastão de cola, os bloquinhos de recado, as canetas coloridas e a régua que despontava em meio delas. Já havia concluído a tarefa que lhe fora deixada, mas não ousava informar isto ao chefe para não receber mais trabalho como congratulação por sua eficiência. Baixou os olhos, fitando a própria barriga. Como estava grande! Lembrou-se de todas as tentativas fracassadas de emagrecer. "Depende só de mim!", dizia-se nestas ocasiões. Mas como o ingrato resultado não aparecia no dia imediato ao sacrifício de engolir um prato de salada, acabava dando-se por vencido e voltava aos velhos e condenáveis hábitos alimentares. Aliás, era assim em tudo mais. Prometia-se dia após dia, atrasado no ponto de ônibus, que dormiria cedo naquela noite, acordaria bem disposto no dia seguinte e seria o primeiro a chegar ao trabalho. Mas, à noite, entretinha-se com alguma futilidade, como um jogo de computador do qual estava enjoado ou algum programa de TV que não lhe interessava, e ia dormir pelas tantas da madrugada, maldizendo-se a si e à sua sina: a de não ter controle sobre as próprias vontades.

Tédio! É o pior dos sentimentos do homem, pois até o sofrimento prefere-se a ele, não sendo outra coisa senão a agonia da alma que se esvai por nada. Anselmo sentia-se fortemente amarrado à cadeira na qual estava sentado. Sua liberdade física contrastava com o aprisionamento que sentia por dentro. O telefone tocou, era sua ex-esposa. Sentiu uma pontada de esperança no peito ao pensar que alguém no mundo precisava falar-lhe. Sentimento este que desvaneceu quando a irritadiça voz de mulher do outro lado da linha principiou a conversa pelas habituais queixas de Bruno, filho de onze anos do casal, dizendo que este necessitava de um pai de verdade, presente, de voz ativa e blá-blá-blá. As constantes reclamações remontavam à época do falido casamento e a atitude resignada de Anselmo em muito irritava a então esposa Clarisse. Desta vez não foi diferente, ouviu tudo calado. Foram muito os agravos pessoais feitos por Clarisse ao telefone, mas que não foram contudo absorvidos, pois em situações desagradáveis como esta a mente de Anselmo armava-se de um estado letárgico que tudo abstraía. E assim desligaram, ela irritada, ele mais entediado que antes.

Levantou-se e moveu seu pesado corpo lentamente em direção ao banheiro. No caminho, passou por Silvana, a secretária. Fitou seu belo par de pernas. Desviou, porém, afetadamente o olhar ao perceber que ela lhe dirigia um seco cumprimento. Respondeu com não mais que um discreto aceno de cabeça. No lavabo lavou o rosto, apoiou os braços na pia e observou a própria imagem no espelho. "Derrotado!", disse a si mesmo em voz alta, erguendo o dedo indicador. A porta do banheiro abriu-se, tendo dado tempo suficiente para que o colega de trabalho Marcelo presenciasse aquele momento de destempero.

- O que está acontecendo, meu camarada? - perguntou Marcelo em tom zombeteiro.
- Hé-hé. Estava apenas lembrando... de um filme... que eu vi. - respondeu gaguejando.

Saiu a todo vapor e, tentando fugir logo daquele constrangimento, abriu a porta com ímpeto, sem dar-se conta de que o Sr. Soares, chefe do setor, aproximava-se pelo outro lado. A porta acertou-lhe em cheio o nariz, derrubando seus óculos no chão e deixando-o tonto por alguns instantes.

- Mil perdões, senhor. Eu estava meio distraído... - começou Anselmo.
- Eu percebi! - cortou o chefe, recompondo-se - Mas deixe isso pra lá. A quantas anda aquele relatório que lhe pedi?
- Já está quase pronto.
- E quando deixará de estar "quase"?
- Hoje, no final do dia, mando ele para o seu e-mail.
- Já estamos no final do dia. - disse Sr. Soares, consultando o belo relógio prateado no pulso - Isso significa que somente amanhã vou poder consultá-lo. Mas não faz mal, o importante é que de manhã cedo (Se é que você chegará cedo amanhã) comece logo a confeccionar aquele outro relatório do qual lhe falei e que ele fique pronto à tarde.
- Sr. Soares, eu acho que não dá tempo de...
- Peça ajuda ao Marcelo, que é mestre nessa arte dos relatórios. Ah, olha ele aí - e apontou para o citado colega, saindo do banheiro. - Meu caro Marcelo, você pode dar uma força para o Anselmo amanhã num relatório que eu pedi?
- Claro. Sem problemas - respondeu Marcelo solicitamente.
- Acho que não é necessário. - disse Anselmo - Veja bem, eu...
- Mas você acabou de me dizer que não consegue. - interrompeu Sr. Soares - É melhor pedir ajuda a um colega mais capacitado do que não concluir a tarefa no tempo devido. Não é vergonha nenhuma.
- Com certeza! - exclamou Marcelo. - Amanhã a gente senta junto e detona esse relatório rapidinho.

Ambos despediram-se de Anselmo antes que este pronunciasse palavra. Odiava Marcelo por este poder de atrair atenção sobre qualidades que nem mesmo possuía. Via-se infinitamente mais competente que o colega na "arte dos relatórios", tanto que concluíra na metade do prazo o pedido do chefe, não havendo-o entregue apenas por langor. Das vezes que dividira tarefas com ele, a divisão fora: Anselmo ficara com o trabalho e Marcelo com o crédito. Não que Marcelo lembrasse um orador do areópago ateniense, mas comparado à articulação de Anselmo - seu olhar perdido, que aparentava buscar abrigo dos olhos do interlocutor, seu falar incerto que punha em dúvida quem ouvia-lhe falar sobre suas mais profundas convicções - comparado a tudo isso Marcelo era o próprio Mercúrio.

No dia seguinte, exibindo no rosto o inchaço de ter despertado há pouco, Anselmo, atrasado como sempre, chegou a sua mesa de trabalho. Marcelo, como de costume, havia chegado há mais de uma hora e estava navegando em seus sites de mergulho, enquanto degustava um grande copo de café.

- Fala, Anselmo! Hoje a gente detona aquele relatório, hein? Assim que eu terminar isso que tô fazendo aqui, sento lá do seu lado pra te ajudar. - disse Marcelo animadamente, esticando o pescoço sobre o monitor.
- Sem problemas. - foi a resposta lacônica de Anselmo.

Anselmo sentiu seu ventre inflamar, pois sabia que Marcelo não se levantaria dali até o meio-dia, quando finalmente iria se aproximar, perguntar como o colega estava se saindo e avisar que depois do almoço eles "detonariam" o relatório. E no fim do expediente, tão logo Sr. Soares chegasse, Marcelo saltaria diante dele e, exibindo propositadamente seu palavreado técnico ininteligível, discorreria sobre mil dificuldades do relatório que ele sequer olhara e como eles - confiando plenamente que Anselmo concluíra a tarefa - haviam superado todas elas. Esta era sua tática para obter o reconhecimento do chefe sem mover uma palha e tinha em Anselmo a vítima perfeita, visto que este nunca esboçava reação ao vampirismo do colega. Mas desta vez Anselmo estava determinado a combater o algoz com todas as suas forças, que não eram muitas, ele sabia.

O relógio marcava dois minutos para o fim do expediente quando Sr. Soares despontou no corredor. Marcelo pulou imediatamente de sua cadeira e posicionou-se ao lado de Anselmo. Estava armado o bote. O chefe nem teve tempo de cumprir seu papel de cobrador de resultados, pois Marcelo não quis perder o deleite de desfiar seu vocabulário nebuloso com se fosse um rosário. - E então, – concluiu Marcelo – resolvido o problema dos vínculos dinâmicos entre as tabelas ficou fácil concatenar as informações resultando na visualização pretendida para os dados brutos. - Oh! Muito bom, Marcelo. – admirou-se Sr. Soares. – Você nunca falha na arte dos relatórios.

Sr. Soares pediu para Anselmo mostrar o resultado na tela e para sua surpresa o relatório exibia centenas de linhas repetidas e várias informações inconsistentes. Anselmo, seco, disparou:

- É, parece que ainda existe um probleminha no vínculo entre as tabelas...
- Mas não é possível! – disse Sr. Soares - Preciso enviar este relatório para a sede amanhã antes do almoço. Como isso foi acontecer, Marcelo?
- Não se preocupe, Sr. Soares. – respondeu Marcelo – A gente vai dar um jeito nisso.
- Claro que vão! E ainda hoje! – sentenciou o chefe, se retirando.

Anselmo sabia exatamente onde estava o problema e o havia plantado ali de propósito. Estava cansado de servir de degrau para o colega malandro.

- Merda! Logo hoje que eu ia sair com a Renatinha! Vamos Anselmo, conserta logo esse troço. – disse Marcelo, implorando.
- Não faço idéia de onde esteja o problema. - respondeu Anselmo - Fiz do mesmo jeito de sempre e nunca tinha dado isso.
- Era só o que me faltava! – disse Marcelo. Pegou o celular e discou. – Alô, Renata? Oi, sou eu. Deu um probleminha aqui no trabalho daqueles que só eu posso resolver. É... É... Não! Não tô cancelando nada não. Vai indo pro bar que eu te encontro lá. Ora... Pode ir! Confie em mim. – e desligou.

Marcelo olhava para a tela do computador como se olhasse para o alfaberto cirílico. Anselmo, que nada sabia sobre o encontro do colega, fazia um esforço sobrehumano para conter sua satisfação e disfarçá-la de fastio e agravo. Sentia-se agraciado pelos deuses.

Conforme o tempo ia passando, Marcelo ficava mais irritado. Seu telefone tocava de dez em dez minutos. A voz feminina do outro lado da linha foi ficando cada vez mais audível e esganiçada. Anselmo já conseguia entender frases inteiras com a ajuda do silêncio que se instaurava com o avançar da noite no Centro da Cidade. Já eram quase dez.

- Merda! Ela se mandou. – disse Marcelo, fechando seu celular último tipo – E ainda fez questão de dizer que nunca mais vai marcar nada comigo.

Dali em diante Anselmo divertiu-se com uma sucessão de tentativas estúpidas de Marcelo para resolver o problema. Este último realmente não tinha idéia do que fazia. Anselmo se perguntava de quantas vítimas aquele vampiro sugava o sangue para manter seu emprego por tanto tempo e com tanto prestígio. A arte dos relatórios! Era realmente algo bonito de se ver.

O dia amanheceu. Anselmo havia dormido em sua cadeira. Apenas baixara a cabeça sobre o peito e cochilara sabe-se lá por quanto tempo. Seu pescoço, ombros e coluna doíam. Encontrou Marcelo com os olhos vermelhos fixos no monitor. Era triste. Em seu rosto abatido lia-se um misto de desespero e estupefação. Parecia não acreditar que sua carreira cuidadosamente construída, como que confeccionada num tear, desmoronasse diante dele assim, numa única tacada. Faltava tão pouco para ele ser promovido a assistente gerencial e depois disso é que não precisaria mesmo saber criar relatórios. Então Sr. Soares chegou.
- Ai, meu Deus! – exclamou o chefe, levando as mãos à testa – Viraram a noite e pela cara de vocês não conseguiram nada. Se este relatório não estiver na minha mesa até meio-dia, vocês vão ter sérios problemas!

Anselmo estava excitadíssimo. Tinha tudo planejado em sua mente. Quando faltassem apenas dez minutos para o fim do prazo, diria a Marcelo que iria ao banheiro e então irromperia sala do chefe adentro anunciando a solução definitiva para o problema, sem dar ao colega a chance de colher uma migalha sequer dos louros da vitória. E quando faltavam pouco mais de dez minutos, levantou-se e foi ao banheiro. Ficou um bom tempo lá, jogando água fria no rosto. Olhou-se no espelho.
- É hoje! – disse, tascando um beijo no ar para própria imagem refletida.
Ao voltar, notou que Sr. Soares não estava em sua sala. No caminho de volta, viu que João, funcionário mediano - mas um gênio dos relatórios se comparado a Marcelo -, estava sentado em seu computador. Sr. Soares e Marcelo estavam com ele e falavam efusivamente. Anselmo gelou. Foi quando o chefe o avistou, fez um largo sinal com o braço para que se aproximasse e disse em alto e bom som, para que todos escutassem:

- Anselmo! Não é possível. Vocês viraram a noite por causa de um errinho idiota que o João resolveu em dois minutos?! Eu não acredito! Pra minha sala, os dois, agora!

Anselmo sabia muito bem o que aconteceria. Não, não seria demitido. Mas seria obrigado a ouvir toda sorte de críticas absolutamente infundadas sobre si. Veria aquele homem, que só passava por ele como um raio, comportando-se como o legítimo legislador de sua vida, o autêntico senhor de seus dias; abanando a cabeça, resignado, como se suportá-lo fosse um fardo vindo dos céus; reprovando cada detalhe de seu comportamento, muitos inventados ali, de improviso. Mas o pior de tudo era receber sua misericórdia. Ser obrigado a engolir silenciosamente sua atitude pretensamente magnânima, que outorga um perdão claramente imerecido, simplesmente por participar de uma natureza superior. Aquilo era pior do que ver Marcelo levando o crédito. Pior que ouvir sua ex-mulher reclamar ao telefone. Pior que observar os ponteiros inflexíveis do relógio. Pior que tudo, tudo na vida. Mas Anselmo conseguiu abstrair, refugiando-se em seu estado letárgico. Era somente ali que se sentia bem.

10 Novembro 2007

O Hall das Vidas Passantes

A gente estudava na mesma turma do segundo ano. Ia e voltava da escola junto todo dia, no mesmo ônibus. A gente conversava sobre um monte de coisas e o legal da Marcela é que ela não é do tipo de garota que só fala de coisa de garota, tipo garotos, sandálias e garotos. E tinha umas pernas... E falava de tudo, tudo. Quer dizer, menos daqueles assuntos. Mas até de futebol a gente falava. Juro.

Não sei o que ela fazia naquela escola. O pai dela nem trabalhava, o desgraçado. Tinha uma pá de táxis rodando pra ele. Dizem que ganhava uma baba, e devia ganhar mesmo. O prédio deles era o mais chique do bairro. Chique de subúrbio, sabe? Isso é engraçado. Qualquer um que mora em prédio com porteiro no subúrbio acha que é bacana. Mas o prédio dela era bacana mesmo. Eu deixava ela lá todo dia e seguia mais uns 300 metros rua acima até entrar num corredorzinho de cimento rachado que dava numa espécie de vila. Eu morava no número 8. Era a única casa com número de verdade. Era um daqueles números de ferro dourados, que meu pai fez questão de comprar pra não ter que fazer como os vizinhos, que davam um jeito de rabiscar o número da casa na parede com lápis de cera. Eu sentia que meu pai tinha orgulho disso.

Teve um dia que choveu pra burro. Foi uma tromba d’água daquelas que caem assim de uma hora pra outra. Ninguém tinha levado guarda-chuva e a Marcela tinha feito o cabelo naquele dia, porque era aniversário de uma prima à noite. Como ela tava linda! Os cabelos faziam umas voltinhas na ponta, iam e voltavam, desenhando vários Cs. E o pior de tudo era que o cabelo novo tinha ressaltado os lábios dela. Nossa! Ela tava com dois lábios do tamanho do mundo e eu queria pular dentro deles, me perder ali pra sempre e só sair pra morrer. Mas ela tava desesperada com o troço do cabelo e aí eu peguei meu livro de matemática e fiz de cabaninha pro cabelo dela.

- Tá maluco, garoto!? Como é que você vai estudar depois? – ela perguntou.
- Como se eu fizesse isso, né? Depois você me paga com cola. – eu falei. Ela riu.

Ela tava morrendo de frio e os seios dela ficaram eriçados. Aquela boca enorme, as voltinhas no cabelo e as duas bolinhas apontando por debaixo da blusa me deixaram louco. Bendito o homem que fez as camisas de colégio brancas! Chegamos ao prédio e ela me convidou pra entrar um pouco e escapar da chuva. Ficamos no hall. Era uma entradinha social, mas ela enchia a boca pra dizer “hall”. Meu livro de matemática estava em frangalhos. As páginas se desfaziam na minha mão. Mas o cabelo dela estava intacto. Lindo e intacto.

O bom desse tipo de temporal é que faz o mundo todo sumir. Parece que a rua respira aliviada sem aquele monte de gente inútil perambulando pra lá e pra cá. Tudo que resta é o barulho da chuva, mais nada. Foi aí que a gente se olhou. Daquele jeito, sabe? Tava na cara que a gente ia se beijar. Mas a gente estudava junto há um tempão e eu achei que era meu dever dizer alguma coisa legal naquele momento. Eu não era igual aos retardados do colégio que não sabiam dizer um troço bonito nem no velório da mãe. Eu já sabia até o que ia dizer. Tava guardado na manga há um tempão pra caso uma situação dessas acontecesse. Eu ia dizer assim: “Você já parou pra pensar quanta gente passa pela nossa vida e depois a gente nunca mais vê? Isso é porque a vida dá algumas chances pra gente segurar quem a gente acha que vale à pena. Se a gente não segura uma pessoa, a vida leva embora achando que a gente não dá a mínima. E eu não quero que isso aconteça com você. Não quero que você passe. Quero que você fique”. Mas eu não disse nada. Fiquei travado olhando pra ela. As palavras ficaram girando na minha mente numa ordem aleatória e incompreensível. Eu tentava ordená-las, mas elas se embolavam cada vez mais. E a maldita da chuva parou. Desgraçada!

- Olha, a chuva diminuiu. Acho que já dá pra você ir. É melhor eu subir porque daqui a pouco minha mãe vai começar a ficar preocupada. – ela disparou, impiedosa, como uma sentença.
- Tá.... tá.... tá bom. – disse, me atropelando.
- Vou pedir pro meu pai pagar um livro novo pra você.
- Que livro?
- Esse! – e com sua mão, levantou a minha, que ainda carregava os destroços do que um dia foi um livro de matemática.
- Ah! Não... não... não... – Maldição! As palavras simplesmente não saíam.

Ela virou as costas e foi embora. Pude ver a camisa de malha encharcada colada em suas costas magras, as ondinhas de seu cabelo realizando uma cruel dança de despedida e as meinhas soquetes perdidas dentro do enorme e sofisticado par de tênis esportivo.

Depois daquele dia, tudo mudou entre a gente. Não era mais aquela coisa, sabe? Eu olhava pra ela o tempo todo, tentando achar aquele olhar, mas era como se alguma coisa estivesse impedindo, um véu de fumaça, que não me deixava chegar até ela de verdade. Depois ela arrumou umas companhias femininas, umas garotas normais, daquelas que não falam sobre tudo, mas só de sandálias e garotos. Era o fim. No fundo, eu sabia que tinha perdido a chance que a vida tinha me dado pra não deixar a Marcela passar. E isso doía um bocado. Mas a vida, a minha, tinha que seguir de algum jeito.

Num belo dia, eu estava voltando da padaria, de bermuda velha e chinelo de dedo, carregando um saco plástico com pão e mortadela, como fazia todas as tardes. Sempre que eu passava pelo prédio da Marcela, olhava lá pro “hall”, na esperança de pegar ela chegando ou saindo. Já aconteceu umas duas vezes. Em cinco anos. E ela tava lá... se atracando com um marmanjo. Eu parei. Na verdade, estatelei. Eu, meus chinelos e meu pão com mortadela. Foi ridículo. Minha figura tragicômica acabou atraindo a atenção dos dois, que pararam de se beijar e olharam pra mim. Eu levantei a mão, num aceno abobalhado.

- Oi, Anselmo. Você quer falar comigo? – perguntou Marcela, num misto de simpatia forçada e raiva contida.
- Eu queria saber se você falou com seu pai sobre o livro de matemática. É que minha mãe reclamou pra burro... – Ridículo! Mas foi a única coisa que me veio à cabeça.
- Tá, vou falar com ele. Amanhã a gente se vê na escola. – concluiu taxativa.

Nem esperou eu ir embora. Na verdade, parecia apressada em voltar a beijar o malandro para que eu visse. Não esbarrei com ela nos dias que se seguiram. Quer dizer, a vi durante a aula, mas só. Ela conseguia ficar invisível nos intervalos e na saída. Não adiantava procurar.

Voltei a encontrar com ela numa tarde, lá na rua. Eu estava voltando pra casa levando pão com mortadela. Ela estava andando abraçada com o malandro lá. Na verdade, o cara era muito mais alto que nós dois e ela tava enfiada debaixo da asa dele, igual um pinto debaixo da galinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, mas dessa vez resolvi dar uma de durão. Olhei bem fixo pra eles. Ela me cumprimentou com um ligeiro levantar de sobrancelhas. Cara, aquilo me arrasou. Seria melhor se ela tivesse virado o rosto e passado direto. Eu levanto a sobrancelha daquele jeito pra cumprimentar as amigas da minha mãe, que eu só reconheço acidentalmente depois de ser fitado por elas durante vários segundos. Levanto a sobrancelha pra escapar dos “Tá grande!”, “Tá bonito!”, “Tá um homão!”. Marcela tinha passado. Ou melhor, Anselmo tinha passado para Marcela.

Alguns dias depois, ouvi a voz dela gritando meu nome na rua. Ela tava com um embrulho na mão. Tava na cara que era o livro de matemática. Estava surpreendentemente simpática e me agradeceu dizendo que tinha esquecido que eu era o responsável pela felicidade dela. Afinal, graças a mim ela chegou na festa daquele dia com o cabelo intacto e conheceu o malandrão com asa de galinha. Eu devia pegá-la pela nuca, tascar-lhe um beijo na boca e dizer que aquele babaca nunca ia ligar pra ela tanto quanto eu. Mas fui simático como todo bom frouxo. Desejei felicidades, agradeci o livro e parti. Cheguei em casa e fui direto para o banheiro, com livro, pão, mortadela e tudo. Levantei a tampa da privada, abri o embrulho e comecei a rasgar página por página do livro dentro da privada. Fiquei olhando aquelas fórmulas boiando sobre a água do vaso até serem consumidas por ela e desaparecerem para sempre. Era um ritual de exorcismo. O vaso acabou entupindo com tanto papel e levei um baita esporro do meu pai. Ele me fez pagar o conserto em suaves prestações que ele descontava da minha mesada, que já era ridícula de pequena.

Depois desse dia, nunca mais vi Marcela. Talvez até tenha visto, mas não percebido. Acho que estou até esquecendo o rosto dela. Mas agora aquele discurso sobre a vida, de não deixar passar as pessoas e tal, tá bem decoradinho. Intensifiquei os treinamentos. Consigo recitar palavra por palavra sem gaguejar diante do espelho. Não dou outro mole desses nem morto.

07 Novembro 2007

Oceano dos Rostos Sem Nome

Já estava acostumada às correntes daquele mar de rostos flutuantes ao seu redor e esfregava mecanicamente um panfleto no outro antes de estendê-lo a um transeunte, sem conseguir enxergar, entretanto, nenhuma lógica naquele procedimento. Em seus primeiros dias naquele trabalho, sentiu-se terrivelmente deprimida ao constatar que se tornava invisível, inexistente ao plantar-se na esquina da Rio Branco com Assembléia munida de seu bloquinho de panfletos onde lia-se "Dinheiro Rápido". Mas a depressão foi rapidamente substituída pelo ódio. Concluiu que os passantes que sequer miravam seu rosto para negar-lhe o recebimento de um panfleto gentilmente estendido só podiam fazê-lo por algum prazer sórdido. Transformou-se então numa máquina de panfletagem, estendendo os braços em movimentos curtos e precisos. Tudo que via era a imensa massa turva de feições que brotavam aleatoriamente diante dela. Vez por outra sentia náuseas.

Então viu um homem de terno caminhando em sua direção. Já devia ter passado por ali centenas de vezes, mas só agora ela o reparava. Seus olhos eram duas grandes bolas pretas de bilhar. Profundos e enigmáticos, como enormes buracos negros sugando tudo ao redor. Ficou fascinada por aqueles olhos. Esticou o braço o mais que pôde para entregar-lhe um panfleto, mas o homem não a percebeu. Não conseguiu mais tirar da cabeça a imagem daqueles olhos. Finalmente algo intrinsecamente vivo havia cruzado seu caminho.

No dia seguinte, por volta do mesmo horário, o homem de terno passou por ali novamente. Ela, porém, aguardava-o em grande estilo. O rosto maquiado, o decote generoso valorizando seu busto e o salto agulha que castigava suas pernas desde que os calçara eram os responsáveis pelo relativo sucesso que fazia na esquina. Seu colega de posto na panfletagem, um gaiato uns quinze anos mais velho, passara toda a manhã lhe dirigindo gracejos inconvenientes. Até mesmo alguns transeuntes substituíram seu habitual olhar indiferente por outro mais "humano". Porém, o homem de terno conversava entretido com um amigo e não virou o rosto em sua direção. Sua decepção foi tão palpável que seu colega de posto disparou de imediato:
- Então é por causa desse maluquinho de terno que tu veio embonecada desse jeito?
- Vem cá, tu é meu marido agora, é?! – respondeu, agressiva.
- Devia ser, mas tu é doida. Fica sonhando com o que não nunca vai ter.
- E tu lá tem idéia do que eu quero? – perguntou em tom imperioso, encerrando assim a discussão.

E a imagem daqueles dois lagos de negritude não lhe abandonava. Precisava, de uma forma ou de outra, estar sob a mira deles. Decidiu então tomar medidas extremas. No dia seguinte, quando o homem de terno passasse novamente, simularia um desmaio diante dele. Um olhar bastaria para devolver-lhe à vida e salvá-la do mecanicismo daquele mundo gélido. E lá vinha ele, vestindo um elegante terno cinza escuro, caminhando sozinho entre a multidão. Ao vê-lo cada vez mais perto, sentiu crescer dentro de si uma angústia incontrolável. Já não sabia mais se teria coragem de levar seu plano adiante. E o homem vinha em sua direção numa linha reta milagrosamente desobstruída. Sua pulsação disparou, um calor tórrido subiu-lhe ao rosto, sua visão escureceu e suas pernas bambearam. Contra a vontade, desabou no chão. Talvez o corpo tenha feito o que a alma não teve coragem. O homem de terno imediatamente correu em seu auxílio, pôs a mão por baixo de sua nuca e levantou-a do chão. O outro panfletista, por sua vez, empurrou grosseiramente o homem, como se ele cometesse uma grande indelicadeza ajudando a moça.
- Circulando, grã-fino! Circulando!
- Se precisar de alguma ajuda, me procura – respondeu o homem inabalado, entregando-lhe um elegante cartão de visitas.
- E desde quando eu preciso de ajuda pra cuidar de mulher minha?! – vociferou o panfletista.

Depois de recobrar a consciência, foi arrastando-se vagarosamente, apoiando-se no ombro do colega, até o supervisor dos panfletistas, que ficava na esquina da Presidente Vargas com Uruguaiana. Era lá que eles pegavam seus bloquinhos de panfleto pela manhã. Antes que ela tivesse tempo de responder ao supervisor, que indagava o motivo de sua expressão pálida, seu colega tomou-lhe a frente:
- Chefe, essa garota não pode ficar na Rio Branco não. Ali faz muito sol e a menina quase empacotou na minha frente.
- Mas que menina frouxa, hein?! Larga ela aí. Amanhã vejo outro posto pra ela. – respondeu o supervisor, indiferente.
- Não foi sol coisa nenhuma! Eu passei mal porque... – disse ela, tentando esboçar uma reação.
- Ssssh! Não me crie caso. Por muito menos já mandei garota frouxa pra rua. – cortou o supervisor.
Se tivesse forças, agrediria seu agora ex-colega de posto ali mesmo, sem cerimônias, mesmo sabendo que perderia o único trabalho que conseguira em meses de árdua procura. Seria merecido e acima de tudo prazeroso, mas sentiu a vista escurecer novamente e procurou se acalmar.

No outro dia, não conseguindo conter-se ao ver o relógio marcar o horário em que o homem de terno costumava passar, abandonou seu novo posto e seguiu em desabalada carreira para a Rio Branco, sabendo que não podia cruzar com o supervisor em sua costumeira ronda pelos postos, pois seria caso de demissão imediata. Mas imediato era seu desespero e por isso corria, suava e gemia. Avistou entre a multidão a nuca de uma cabeça careca que ela conhecia muito bem, era seu supervisor em seu habitual passo de cágado. Não podia ultrapassá-lo, mas também não podia acompanhar seu passo lento. De impulso, entrou numa galeria comercial que cortava um dos prédios. Saiu do outro lado, correndo feito uma louca. Quando chegou, o homem de terno estava dobrando a esquina. Correu até ele, puxou-lhe pelo braço e pousou um panfleto em sua mão. O homem reconheceu-a, fez menção de dizer algo mas não teve tempo, pois ela voltara a correr alucinadamente para voltar a seu posto. O homem observou o panfleto e viu algo no verso escrito a lápis, numa caligrafia insegura, infantil. Era um nome, apenas um nome, o nome dela, e só.

Metamorfoseado

Acordou se sentindo um merda. Não tinha motivo aparente, mas sentia até o gosto de merda na boca. Esfregou a testa suada com as costas da mão e levantou cambaleante. Segundo Kafka, o momento mais perigoso do dia é o acordar. Pois Antônio acordou metamorfoseado numa grande montanha de fezes secas, desbotadas e de cheiro enjoativo e nauseante. Mas ele lembrou que não tinha tempo para curtir sua deprêzinha matinal. Tinha que enfiar-se numa calça de microfibra barata e ir para o trabalho. Minutos depois, devidamente vestido como um trabalhador, rumou para o ponto do ônibus relembrando todas as pessoas que conseguiram viver sem ele. Colegas de escola, de faculdade, de outros empregos, ex-namoradas, ex-vizinhos, ex-melhores-amigos... Desfilavam diante dele suas esposas, maridos, filhos, novos-melhores-amigos, cachorros, gatos, amantes...

Mas não era assim com todo mundo? A vida não era um gigantesco acelerador de partículas chocando pessoas umas contra as outras e espalhando-as por toda sua extensão monstruosa? Era evidente que sim. Mas o que incomodava Antônio era não deixar nenhuma marca. Sentia-se um espectro passeando por um mundo ao qual não pertencia. Vez por outra imaginava a própria morte. Seu corpo descendo terra abaixo num caixão, os rostos condoídos daqueles que solidariamente compareceriam àquela celebração da comunhão de todos os homens na morte. E dois dias depois, o que lhes aconteceria? No máximo, uma sensação estranha, desconfortável, de um não-sei-o-quê que ficou pra trás. Talvez uma conta que esqueceu-se de pagar, uma lâmpada deixada ligada, uma boca do fogão esquecida acesa. Então se lembrariam que alguém morreu, mas por efeito do terror ritualístico de um corpo entregue aos vermes diante dos vivos. Nada mais que isso.

Pegou o ônibus. Sentou-se observando aqueles rostos lobotomizados. Viu-se neles. Será que depressão era aquilo? Não, não era. Depressão era para consciências profundas que se deparavam com a transitoriedade da vida. Antônio só se sentia um merda e qualquer coisa além disso soava para ele como pura pretensão. Chegou ao trabalho e uma vez lá conversou, riu e brincou como todos ali. Mas uma reminiscência amarga repousava em sua boca. Sabia que um dia seria demitido ou se demitiria e aqueles que hoje agiam como participantes permanentes de sua vida sequer se lembrariam da cor do carpete onde pisavam se perguntados. Não tinha nada a dizer-lhes que pudesse afixá-los a si. Não tinha conselhos profundos para dar, reflexões edificantes para compartilhar ou sentimentos calorosos que lhes fossem dedicados. Nada.

À noite, voltou pra casa. Abriu a geladeira, pegou alface, tomate, pepino e fez uma salada. Requentou a carne assada do dia anterior e jantou assistindo Jornal Nacional. Chorou. Olhava para o apresentador e não conseguia conter as lágrimas quentes que desciam. Chorava, não por si próprio, mas pelo apresentador. Não era pena, nem compaixão, nem um choro misericordioso, como se lhe fosse superior, mas era algum tipo de comunhão, como se tivesse certeza que o apresentador também chorava. Cansou de chorar e desligou a TV. Deitou na cama, fitou o teto e refletiu. Chegou à conclusão de que toda aquela veadagem não ia chegar a lugar nenhum. Resolveu dormir, pra ver se acordava metamorfoseado em algo melhor no dia seguinte.

18 Fevereiro 2007

A Criatura

João Marcos viu a coisa. Era a segunda vez que ela aparecia, no mesmo horário. Era do tamanho de um boi, tinha uma cabeça de leão, mas flamejante, e o corpo de um avestruz, pingando de molhado. João Marcos ficou paralisado olhando pra ela. Da primeira vez foi pior. Ele se perguntava se estava no inferno ou se aquilo era Deus. Mas porque a coisa não lhe matara antes e mataria agora? Então relaxou. Bem, nem tanto. A figura era pra lá bizarra e o fitava nos olhos com interesse. Mas com o tempo, João Marcos passou a ignorar a criatura e deitar-se para o outro lado. Às vezes ele esquecia e, durante a madrugada, virava para o lado da porta e lá estava ela, parada, com seu olhar interrogativo. Mas pernoitar noite após noite é que não dava. E o bicho ficava lá, quietinho, quietinho. Que mal tinha, né?

Um belo dia, João Marcos foi para o trabalho, como sempre. Estava no ponto esperando o ônibus quando de repente apareceu a coisa do outro lado da rua, com sua cabeça flamejante e seu torso pingante. Nosso amigo arregalou os olhos, quase se rendendo ao desespero, mas ao notar que ninguém ao seu redor via a criatura, se recompôs, ajeitou a gola da camisa e fez que não era com ele. Pelo contrário, empinou a cabeça e passou a fitar a criatura com um ar desdenhoso, cheio de empáfia. Então a criatura mostrou os dentes. Eram tantos, tão grandes, afiados e alvos que causavam quase tanta admiração quanto pavor. João Marcos ficou aterrorizado. Se contorcendo de pavor, abordou um rapaz que estava ao seu lado:

- Que... Que... Que horas são, por favor?

O rapaz estava com fones nos ouvidos, mas João Marcos não percebeu. E, com os braços estendidos para o alto e as mãos crispadas, soltou um berro que a rua inteira ouviu:

- Será que alguém pode me dizer as horas, pelo amor de Deus!?

Todos imediatamente viraram as cabeças em sua direçao. O rapaz arregalou dois olhos do tamanho de frigideiras e respondeu atordoado:

- São... São... São quinze pras sete.

Mas quando João Marcos voltou a olhar para o outro lado da rua, a criatura não estava mais lá. O ônibus chegou e ele embarcou debaixo dos comentários injuriosos dos que também aguardavam o coletivo. Diziam, entre outras coisas, que os viciados hoje em dia usam terno e gravata e se drogam às sete da manhã.

Chegou ao trabalho branco como um toco de vela virgem e sentou em sua estação de trabalho sem cumprimentar ninguém. Todos estranharam aquela atitude do sempre falante João Marcos. Percebeu então que precisava disfarçar seu estado de espírito, pois do contrário seria obrigado a explicar todo o acontecido. E quem, em sã consciência, não lhe consideraria - como posso eufemizar – um desprovido de discernimento cognitivo? Enfim, sorriu, cumprimentou, entrou no papo, contou piada, falou do Big Brother, do jogo do Vasco, da corrupção, do crime hediondo da semana e sentiu-se bem novamente. Mas depois de alguns minutos aquela “imgem da besta” retomou seus pensamentos. Pensou em desabafar com alguém, mas quem? Bom, alguém que a princípio acreditaria em seu relato. Não podia ser o Leonardo, que jurava de pé junto que o homem não foi à lua, que a bomba atômica não existiu, que Paul Mccartney é um sósia e que a Terra não gira em torno do Sol. Mas acreditar só também não bastava. O David, que era evangélico, iria dizer que se tratava de um demônio que precisava ser exorcizado. Já a Paulinha, kardecista, diria que se tratava de um mestre espiritual vindo de outro plano. O Marcão, auto-denominado “macumbeiro”, ia dizer que se tratava de um exú pedindo uns trabalhos. Ah, e ainda tinha a Zildete, metida a psicóloga, que com certeza interpretaria a criatura como algum desejo sexual reprimido que João Marcos sentia pela mãe. Pra ela, no frigir dos ovos, todo mundo queria comer a mãe. Então, resolveu deixar como estava.

A criatura continuou aparecendo pra ele, mas o relacionamento dos dois voltou a ser amistoso. Ele não empinava a cabeça, ela não mostrava o arsenal dentário. Passaram-se uma, duas, três semanas nessa paz. Até que João Marcos recebeu no trabalho um telefonema da vizinha, informando que Débora, sua esposa, havia sofrido uma crise nervosa e estava internada. “Crise nervosa?”, pensou, “Débora nunca teve essas frescuras”. No hospital, a enfermeira lhe disse que sua esposa estava bem. João Marcos encontrou a mulher tão sedada, que seus olhos giravam lentamente como uma roda gigante. Seu lábio inferior pendia da boca que exibia um leve sorriso abobado, dando-lhe um aspecto demente. Mas até que ela parecia estar se divertindo. “Se o pessoal do ônibus a visse agora, ia dizer que a gente forma um casal perfeito”, imaginou. O doutor chegou e contou-lhe que Débora deu entrada no hospital com um quadro crônico de alucinação. Ela repetia aos gritos: “Tá pegando fogo mas tá pingano! Tá pingando mas tá pegando fogo!”. João Marcos precisou de uma cadeira.

Em casa, depois de passado o efeito do sedativo, Débora chorava no ombro do marido.

- Fica assim não. Ela não é tão má. – iniciou João Marcos, tentando acalmar a esposa.
- Ela?!
- É, a criatura.
- Você... também.... – disse Débora, balbuciando.
- Aham. Aparece pra mim há tempos.
- Escuta aqui, João Marcos Silvério dos Reis! Eu não estou com humor para brincadeiras, tá me escutando? – explodiu a mulher. João Marcos respondeu com uma calma professoral:
- É do tamanho de um boi, tem cabeça de leão pegando fogo e corpo de avestruz pingando de molhado.

Débora ficou atônita com a descrição exata do marido.

- Porquê?! Porquê!? – disse ela caindo aos prantos. João Marcos abraçou-a forte.
- Não tem porquê meu amor.
- Se essa coisa tá aparecendo pra gente, existe um motivo!
- Mas deixa ela quieta. Comigo nunca se engraçou. Quer dizer, mostrou os dentes uma vez, mas gritei tão alto que ela “puf”, sumiu.
- Você afugentou aquela coisa?
- Foi uma vez só. Mas eu não recomendo que você tente fazer isso, meu bem. Eu sou homem, sabe como é.
- A gente vai dar um nome pra ela?
- Eu gosto de “a coisa”.
- Ai, que falta de respeito! Se é pra ser assim, impessoal, eu prefiro “a criatura”. É mais digno.

E assim, conseguiu tranquilizar a patroa. Ele acreditava que agora, finalmente, os três viveriam em paz. Deitou e dormiu como uma pedra. Não tinha criatura flamejante e pingante que o despertasse do sono. Mas ele tinha uma esposa. Acordou em plena madrugada com os solavancos que a mulher lhe dava para que acordasse.

- Ela falou comigo! – disse Débora, excitada.
- Falou? Falou o quê?
- Quer dizer, fui eu quem falei.
- Mas tinha que arrumar idéia!
- Perguntei por que ela aparece aqui.
- Nem conta que eu não quero saber. – e tapou os ouvidos com a ponta dos indicadores. Débora retirou-os e disse:
- Ela falou que responde qualquer coisa, desde que seja você quem pergunte.
- Ah, eu mereço essa agora! Tu que arrumou idéia, agora vai morrer seca de curiosidade!
- Mas tu não vai perguntar, não?
- E eu quero saber, pra perguntar?
- Mas é um bicho do outro mundo, que pega fogo e pinga água ao mesmo tempo! Sabe lá. Pode contar pra gente todos os segredos desse mundão.
- Se é segredo, não deve ser á toa. – disse João Marcos, virando-se para o lado.
- Mas tu não é homem, não?

João Marcos sentou-se na cama e olhou a mulher nos olhos, furioso.

- E o que tu quer que eu faça?
- Pergunta pro bicho por que ele aparece pra gente. Só isso.
- Deixa comigo. – disse João, deitando-se de costas para a esposa, encerrando a conversa.

Tentou voltar a dormir, mas não conseguiu. Só ficava pensando no que a criatura lhe diria. Não podia sequer especular sobre o que aconteceria depois que fizesse a pergunta. Não que temesse ser dilacerado pela dentição trituradora da fera. Temia era a resposta. O que o bicho iria dizer? Que ele continuasse sendo quem é, vivendo a vida que vive, do jeito que vive, sem tirar nem pôr? Ele não teria se dado o trabalho de ficar de pé na porta daquele quarto noite após noite por nada. Trazia com certeza alguma revelação transformadora, uma missão urgente ou questões inquietantes. "Mas que vá pro inferno você e sua mensagem do outro mundo! Quero a minha vida do jeito que sempre foi!", falou consigo. Abriu os olhos. Lá estava ela: a criatura. Com labaredas dançando sobre a cabeça como se fossem cabelos ao vento. O torso encharcado como se tivesse acabado de sair do mar. João Marcos levantou-se. A criatura o acompanhava com o olhar fixo e interrogativo. Pé ante pé, caminhou até o armário, de onde tirou um guarda-chuva. Aproximou-se da fera com o utensílio empunhado como se fosse uma espada. Ela permanecia imóvel e com o mesmo olhar. João Marcos começou a dar-lhe pancadas na cabeça. Mais e mais pancadas, cada vez com mais força. Erguia e descia o cabo do guarda-chuva com toda força que possúia. Dava-lhe também estocadas para ver se furava-lhe o crânio. O sangue começou a espirrar para todos os lados. O monstro não esboçava reação. João Marcos batia, gritava e chorava. Débora continuava dormindo, como se nada acontecesse. O bicho bambeou, inclinou o corpo bizarro para um lado e tombou pro outro, morto. João desabou sobre os joelhos e derramou-se em prantos sobre a poça de sangue.

Desta madrugada em diante, não soubemos mais o paradeiro de nosso divertido amigo João Marcos. Desapareceu, por completo. A polícia chegou a investigar a esposa, mas arquivou o caso ao ver o estado mental em que a mulher ficou. Até hoje ela pode ser vista naquele mesmo ponto de ônibus, com uma grande placa pendurada nos ombros, no peculiar estilo utilizado por nove entre dez propagadores do fim. Ela grita: “Perguntem à criatura! Perguntar é a saída! Perguntem à criatura!”.

20 Agosto 2006

Sem Remetente

Carolina abaixou-se para pegar um papel que repousava no chão junto à porta. Era um aviso de chegada de correspondência endereçado a João, seu marido. Ele devia comparecer à unidade postal do bairro para receber a carta, encomenda ou o que fosse aquilo. Carolina varreu o aviso com os olhos minuciosamente, de ambos os lados, à busca do remetente da misteriosa correspondência. Nada! Apenas o carimbo do correio, a data limite para retirada e o endereço da unidade postal. Telefonou para o trabalho do marido:
- João, meu amor, tudo bem?
- Tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – perguntou João.
- Não. É que chegou um aviso do correio dizendo que tem uma carta pra você, mas você tem que ir lá buscar.
- Mas porquê?
- Não sei. O aviso só diz isso.
- Quem foi que mandou a carta?
- Também não sei.
- Como assim tem uma coisa lá, que não sabemos o que é nem quem enviou?!
- Mas é exatamente isso, meu amor. Não é estranho?
- Sim, sim. Mas não se preocupe. Mais tarde, quando eu chegar do trabalho, nós resolveremos isso.

À noite, ao chegar em casa, sentado à mesa, lia e relia João aquele enigmático pedaço de papel. Vasculhava a mente em busca de uma possível origem daquela encomenda repentina. Lembrou-se até de um irmão de sua mãe, desaparecido há mais de trinta anos, tido por todos como morto. “Pode ser ele. Quem sabe? Vai que ele está rico em alguma ilha paradisíaca e agora envia-me um presente para mostrar sua boa vontade.”, elucubrava João. Cogitou também o perigo de uma carta anônima ao recordar um caso que tivera há anos atrás na empresa onde trabalhava. Fora seu único relacionamento extra-conjugal, terminado há tempos. Mas porque uma mulher, igualmente casada, com quem não se envolvia há anos, enviaria uma carta revelando tudo? Hipótese descartada. “Talvez seja Carolina que esteja me traindo. Vai saber”, pensou.

Carolina estava no fogão, finalizando os preparativos para o jantar, não deixando contudo de observar a inquietação de João às voltas com o papel. Ela também estava muito inquieta com todo aquele mistério. “Custava colocar o nome do remetente no aviso? Bastava uma linha para evitar este suplício”, revoltava-se. Temia por umas fotos um tanto ousadas que um ex-namorado excêntrico batera dela na flor da juventude, pouco antes de conhecer João, que nunca soubera disso. Alguém poderia tê-las achado e resolvido fazer uma brincadeira de mal gosto. “Eu não saberei onde enfiar a cara se isto acontecesse!”, desesperava-se.

- Mas como eu vou fazer para buscar essa carta? – perguntou João.
- Acho que terei de ir eu, já que o correio só funciona no horário em que você está trabalhando. – propôs Carolina, tentando disfarçar a ansiedade de ver logo sua proposta aceita. Caso fossem mesmo as fotos comprometedoras, poderia se livrar delas sem maiores problemas.
- Eu não acho que você possa receber por mim. Veja, o aviso está no meu nome. – respondeu ressabiado João, desconfiando de algum ardil da esposa.
- Então como você vai fazer?
- Eu não sei... Bom, o jeito é você ir lá e tentar. – entregou-se João, dando-se por vencido, para felicidade da esposa.

No dia seguinte, João contou o estranho caso a Marcelo, companheiro de trabalho há anos, que afirmou não conhecer esta modalidade de entrega do correio, que não informava ao destinatário do que se tratava a encomenda tampouco quem a enviou. Achou tudo isso muito estranho e perguntou-lhe se não tinha idéia de onde poderia ter vindo aquela carta. Ouvindo a negativa de João, sobressaltou-se Marcelo, por haver diversas vezes cortejado Carolina, sem que esta houvesse dado trela a suas iniciativas. Como era o fato de conhecimento de todos no setor, visto que a fofoca se espalha mais no vento que a poeira, temeu que uma carta anônima pudesse pôr fim àquela amizade de muitos anos, que nem sua cobiça desenfreada conseguira destruir.

Marcelo passou então a persuadir João a não ir buscar tal carta, dizendo que nunca ouvira falar de uma boa notícia que chegasse daquela forma, mas que somente as grandes desgraças exigem rufo de tambor e som de trombeta para se fazerem conhecidas. “Às vezes é melhor nem saber de certas coisas para se continuar a vida com paz e tranquilidade.”, dizia Marcelo. Vendo aquela mudança súbita de comportamente no amigo, ficou João desconfiado. Resolveu então fingir aceitar o conselho recebido e, para dar verossimilhança à sua encenação, pegou o telefone, fingiu discar para casa e ordenar a Carolina que não fosse ao correio buscar a tal carta. Marcelo sentiu-se muito aliviado e disse que o amigo havia tomado a melhor das decisões.

Tendo João se ausentado por alguns instantes, aproveitou o colega traidor para telefonar à esposa deste, para avisá-la do grande risco de que os havia livrado. Como João voltou rapidamente, Marcelo foi obrigado a desligar sem dar maiores explicações, deixando em grande interrogação os pensamentos da moça, que resolveu ligar para o marido, perguntando inocentemente porque não devia ela buscar a correspondência. João ligou os fatos e concluiu que havia uma misteriosa ligação entre Marcelo e sua esposa. Irado, ordenou que ela viesse até a empresa imediatamente. Quando esta chegou, ordenou, quase fora de si, que Marcelo os acompanhasse.

Estando os três no carro a caminho do correio, exigiu João, aos berros, que fosse despida a verdade sem demoras nem rodeios, antes de ser aberta a carta fatal, quando seria tarde demais.
- Anda, mulher! – gritava João – Fala logo!
- Eu não tenho motivos para ser acusada de nada, – retrucou Carolina – mas sim esse teu amigo da onça, que andou me cortejando, o que já é de conhecimento de todo o teu setor. Se não te contei, foi para poupar-te da dor da traição desse Judas!
- Isso é verdade, metecapto? – perguntou João, voltando-se para o ex-amigo.
- É verdade. – respondeu Marcelo - Senti-me capturado pela beleza da tua esposa e tentei conquistá-la, mas saiba que tua mulher é a mulher mais honrada que já conheci.
- Então conta-me – disse João - porque não durmiste durante toda a noite passada, mulher! Pensas que não vi quantas vezes levantaste durante a madrugada? Estavas muito aflita.
- Muito me envergonha o que te contarei, marido, ainda mais na presença deste verme que nos ouve. – esbravejou Carolina – Mas contarei a verdade por não suportar mais tanto medo de que seja ela descoberta. Sim, estava aflita e desesperada de que descobrisses que fui fotografada como vim ao mundo por um namorado excêntrico que tive antes de conhecer-te. Temo que esta carta sejam as malditas fotos.
- Mulher vadia! Fazia-te de santa comigo e até as lentes das câmeras conheciam tua nudez!
- Porque acusas tua mulher de desonesta – interrompeu Marcelo – se ela não traiu tua confiança em momento algum, já que nem te conhecia? Mas tu sim, traíste-lhe com a Sílvia, lembro-me muito bem. Agora queres posar de justo, seu grande hipócrita!
- É verdade. – reconheceu João, baixando a voz – não posso negar tal fato. E foi por achar que a carta se refiria a este caso que insone pude observar que Carolina também não dormia.
- Seu infeliz, – gritou Carolina às lagrimas – Como ousas me acusar sendo ainda mais culpado?

Chegaram ao correio com as faces afogueadas, como que carregando uma negra nuvem de tensão sobre as cabeças. João entregou o papel ao atendente, que entrou para buscar a correspondência. Neste ínterim, entreolhavam-se João, Carolina e Marcelo, num misto de ódio, culpa e remorso. Quem os observasse não distinguiria culpado de inocente. Voltou o atendente com um envelope branco na mão. Nenhum deles dava mais atenção ao conteúdo da carta, quando João a leu. Ela dizia:

“Caro eleitor,
em virtude das acusações de campanhas milionárias que receberam diversos candidatos, nosso partido decidiu que as correspondências que enviamos serão pagas por aqueles que as recebem. Sendo assim, viemos por meio desta pedir seu voto para o candidato J..., número X, que promete lutar pela educação, saúde e emprego para todos.

Atenciosamente,
Partido....”